A dificuldade em poder exercer a maternidade e o Dia das Mães
Sobre ser mulher e estar em uma fila de adoção - também estamos grávidas!
Fotos: Unsplash
CARTA AO FILHO
do Livro Nós e Não Eles (2020) de Adriana Moro
“Meu filho, você já imaginou como é para uma mulher jovem ter seu útero retirado?
Passei por isso aos 15 anos. Quando nem entendia direito o que isso significaria.
Para aquelas mulheres que removeram o útero e que chegaram na vida adulta, e isto aconteceu comigo, outros dilemas ainda as cercam, o medo da perda da libido, o medo de ser tocada em suas partes íntimas novamente... medo…medo… e mais medos. Eu pude escutar todas essas reclamações/medos durante uma pesquisa, que realizei com uma de minhas alunas, com mulheres histerectomizadas.
Isso tudo acontece porque, além das funções biológicas, o útero associa-se ao conceito de feminilidade, por relacionar-se ao papel reprodutor da mulher e a sua vida sexual. Além disso, o termo “fertilidade” está associado a uma figura divina, geralmente uma figura feminina, indicando o “dever moral” da reprodução.
Durante toda a história ocidental, o gênero feminino foi marcado por estigmas e estereótipos, isso em todas as classes sociais, eu sei…
As mulheres encontram-se presas por convenções normativas e morais de gênero das quais têm muita dificuldade de fugir. Mesmo aquelas em situação de poder, possuíam obrigações específicas de sua condição feminina, entre elas a mais importante era a de gerar filhos para herdar.
Sabe, sou de uma geração de mulheres que tiveram seus úteros retirados, mãe e avó aos 43 anos… também jovens, mas que já tinham seus filhos…
Em nenhum momento minha vida sexual foi afetada, acredito que não ter útero desde a adolescência até me empoderou nesta parte, pois nunca convivi com o medo de uma gravidez indesejada.
Algumas mulheres até me disseram que eu tinha sorte por não ter útero, porque não gostavam de menstruar e todos os sintomas desse processo. Eu até poderia ter optado por não ter filhos, e estaria tudo bem!
Mas não… eu quero ser mãe! E talvez para as outras pessoas seja difícil mensurar a dor que tive cada vez que uma notícia nova me afastava desse filho desejado.
Assim já tinha esperado a médica que fez minha cirurgia. Ela disse que não seria fácil! Eu até achei que seria… mas realmente não é!
Escutei:
Tem tantos municípios. Não entendo o porquê do desespero!
Isso depois do último parecer do juiz:
Não poderá adotar criança a qual tenha tido contato com a mãe biológica…
Fiquei muito estressada com isso, sei que é melhor não ter tido contato. Mas no momento só pensava que minha atividade profissional, cuidando de mulheres em situação de vulnerabilidade no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) estaria diminuindo minhas possibilidades de encontrar você logo.
Alguém até deu a ideia de eu me afastar do Caps por um tempo, para ter mais possibilidades de encontrar você!
Filho! Preciso te dizer que as pessoas nunca entendem plenamente a dor do outro. Nem nos melhores casos, quando elas se colocam no lugar do outro… mesmo assim, não dá!
Você vai descobrir isso no decorrer da sua vida! O que é um lugar de fala, pois eu vou te ensinar!...
Neste último dia eu só queria um abraço que não tive para amenizar a dor desses 12 anos recebendo nãos.
Depois de tantos anos…
Nunca ninguém verdadeiramente parou para olhar a minha dor do lugar onde eu falo. Talvez minha mãe o tenha feito. Sim, ela fez! Outros também sofreram comigo essa espera… mas é muito difícil!
Cresci tendo a certeza que nosso encontro aconteceria…
Mas não imaginava que demoraria tanto!
De início fui vivendo minha vida, fazendo minhas coisas e talvez fosse mais fácil… mas agora estou pronta! Já fiz tudo o que precisava para podermos nos encontrar sem problemas maiores… já que meu jeito hiperativo, de estar sempre fazendo dez coisas ao mesmo tempo, trabalhar muito sempre fez com que as pessoas achassem que eu não conseguiria ser uma boa mãe, pois “mãe” precisa se dedicar…
Você acha, meu filho, que minhas atividades profissionais realmente podem me fazer uma mãe pior pra você?
Eu acho que não! Creio que serei ainda melhor, pois sei tudo o que passei pra chegar até aqui!
Talvez preparada de verdade, nunca, nenhuma mãe esteja!
Mas essa dor, que não consigo descrever, do meu lugar de fala... essa nem eu sei direito como se nomeia. Sei que parece que tudo me afastava de você, meu filho.
Minhas expectativas me fazem um laço envolto ao meu pescoço, por vezes quase me acabei.
Não sei esperar? Não confio em Deus?
As pessoas dizem isso de quem chora na espera!
Mais uma vez eu digo:
Só queria um abraço que não veio. Porque a dor é minha, só eu tenho ela.
Quando o amor por quem sofre é grande suficiente para levar ao entendimento do lugar de fala?
A felicidade e o alívio vieram, sim, com a sentença de hoje…
Me lembraram do dia que te senti realmente mais perto. Como se estivesse realmente dentro de mim. Como algo que me completa e me deixa mais forte…
Sinto que as coisas vão tomando seu lugar. A ansiedade pela vida, pelas coisas está passando e só o amor que temos para te dar está ficando…
Mas claro que nada poderia ser tão fácil assim…
Acredita que o promotor disse que a mamãe era muito velha para querer você?
Disse sem titubear:
A diferença máxima de idade deverá ser de 35 anos… pois levando em conta os ensinamentos da natureza, fica bem claro que se trata, na atualidade, de uma idade limite… o homem não tem essa limitação na capacidade reprodutiva… de modo que o parâmetro deve ser a mulher.
Onde ele está com a cabeça? – Todos disseram…
A nossa espera toca as pessoas, mas é a minha espera, a minha expectativa que lê o que ele escreveu e não entende porque precisa ser tão difícil.
Ele é preconceituoso, machista… Por que ele falou somente sobre a minha idade?
A maioria das mulheres começa a pensar em filhos com 35 anos… a lei brasileira permite o congelamento de óvulos até 50 anos. Essa conta não fecha.
Vamos até o fim por você!
E por que para o homem é diferente? Onde está a Constituição? Não somos iguais perante a constituição?
Penso nas crianças que esperam por um lar… Penso nos homens e mulheres que têm condições e querem ter um filho.
Penso na dor de tantas outras mulheres que, como eu, não podem gerar…
Eu sempre soube que você nasceria de outra barriga, mas e aquelas mulheres que têm útero, e tentam… tentam engravidar… e só vão se dar conta que não vão conseguir aos 35 anos ou mais?
NESTE ÚLTIMO DIA DAS MÃES ESCREVI QUE SIM, EU TAMBÉM ESTAVA GRÁVIDA… AS PESSOAS ÀS VEZES ESQUECEM DISSO, MEU FILHO, PORQUE A BARRIGA DA MAMÃE NÃO CRESCE… MAS O CORAÇÃO SE ESPALHA DE TANTO AMOR, SE ENRAIZA ENTRE AS ENTRANHAS E TOMA TODO O SER!
Sim, como qualquer outra mulher tive dúvidas, medo, angústia…
Pensei em desistir de ser mãe por me achar incompetente para isso… pensei que talvez não precisasse de um filho para me sentir mulher…
Quantas vezes escutei que por conta da minha carreira ou meus problemas de saúde talvez não fosse boa a maternidade para mim!
Fiz muitos planos, com e sem filhos…
Produzi muitos frutos com meu trabalho, sou maternal em tudo o que faço, por isso já sou mãe!
Já sou mãe dos meus alunos, dos pacientes que cuido, dos meus afilhados e sobrinhos.
Na verdade, tudo isso é muito natural pra mim! O fato é que por não verem minha barriga crescer algumas pessoas não perceberem aquilo que amadurece dentro de mim…
Então resolvi escrever por mim e por todas as outras mamães as quais a barriga não vai crescer, mas que estão grávidas.
Neste último dia das mães resolvi comemorar e de forma diferente, celebrando a vida e tudo o que está por vir… celebrando a história que foi construída para chegar até aqui!
Quando a médica disse que na barriga dessa mamãe não poderia nascer bebê por conta de um dodói, não ser igual a grande maioria… Essa mamãe chorou, se questionou quando cresceu e agora tomou coragem para falar, para discutir e para mostrar que no fundo todos somos pais e mães se formos maternais e paternais nas nossas relações, ter filhos não é condição indispensável para isso.
Estou aqui para falar que por estar numa fila de adoção, independente do motivo que te levou até ali, não é um ato grandioso e sim mais um modo de formar uma família, pois maternidade e paternidade biológicas podem ocorrer de modo infortúnio e não intencional, e gerar filhos não produz necessariamente pais e mães…
Estou feliz e grávida, depois de 12 anos na fila de adoção!
As contrações são cardíacas…
Os peitos estão cheios… de amor e se tudo der certo e você quiser… de leite também, pois é possível!"
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