A trepadeira e a laranjeira
Quem não teve depressão não sabe o quanto ela é dolorida e incapacitante, é realmente como uma erva daninha que vai tomando a vida da pessoa.
Foto: Magnific
Laranjeira era uma árvore muito bonita e frondosa. Vivia tranquila na Rua das Flores, próxima aos parreirais do seu Zé e das ameixeiras da dona Joana.
Laranjeira tinha um dono de nome ignorado, mas mesmo assim, pertencia a todas as crianças da rua que passavam por ela arrancando suas frutas ou subindo em seus galhos firmes, pois ficava muito próxima ao portão da Rua das Flores.
Mas nem tudo eram flores na vida de Laranjeira e, justamente no período de suas flores é que ela enfrentava as piores críticas:
- Esse cheiro me mata! – Dizia Anízia, reclamando sobre sua rinite para a vizinha Engel.
Era o início da primavera. Todo ano era a mesma coisa quando Laranjeira florescia. Ficava tão bonita! Mas não agradava a todos.
Laranjeira gostava de suas flores, achava-se bonita, mas às vezes era difícil ser a única árvore da rua a ficar tão cheia de perfume.
Perfume para alguns, incômodo para outros.
E ainda tinham outros invernos, que sem a geada às suas laranjas ficavam muito azedas.
Laranjeira às vezes se sentia sozinha, pois não haviam outras árvores iguais a ela por perto.
Um dia uma planta trepadeira começou a nascer perto de sua raiz, em um lugar que nem o próprio dono da Laranjeira percebeu. Era um brotinho bonito, que deixou feliz a Laranjeira de início, por estar nascendo.
- Nova vida é sempre bom – Pensava Laranjeira.
De repente a planta trepadeira foi tomando o tronco, se enrolou nos galhos e quando a Laranjeira se deu conta a trepadeira já tinha asfixiado até mesmo seus frutos.
De longe a árvore Laranjeira parecia a mesma, continuou produzindo oxigênio e oxigenando as outras criaturas, fazendo sombra para que os meninos da rua pudessem jogar bola de gude.
Mas de perto, Laranjeira começou a ficar toda marcada no seu tronco.
O dono de Laranjeira, percebendo o que estava acontecendo, arrancou a trepadeira por inteiro, pintou o tronco da árvore de branco, passou algum tipo de veneno.
- Pronto! - Disse o dono de Laranjeira. – A árvore está livre da trepadeira.
As podas continuaram sendo feitas na época, Laranjeira continuou a produzir frutos doces e às vezes azedos também, conforme a geada do ano.
Tudo parecia estar como deveria estar. Os meninos subindo nos galhos frondosos de Laranjeira, as suas flores incomodando alguns e trazendo suspiros e admiração a outros.
Até que certo dia choveu em demasia, ventou muito e o solo que envolvia a grande árvore Laranjeira se erosou. A raiz ficou mais exposta e, a tal trepadeira que estava quase morta no fundo da terra surgiu novamente com força.
O dono da Laranjeira se culpa, mas não sabe direito o que fez de errado para a trepadeira voltar.
Laranjeira foi ficando novamente fraca, não conseguindo dar o seu melhor pro meio ambiente e nem para os seres ao seu redor. Laranjeira acha que está velha, quem sabe. Ou que terminou sua missão.
Laranjeira chegou a pensar que poderia morrer e ser transformada em mesa ou papel para as crianças desenharem. Mas, na verdade, o que Laranjeira mais gosta é dar frutos, mesmo que tenha que ver suas flores morrerem para isso acontecer. Ama balançar seus arbustos, fazer sombra.
Laranjeira está fraca e de novo todo seu tronco foi tomado pela trepadeira.
A inimiga tomou os espaços das velhas marcas que tinha deixado da outra vez, e agora foi até mais fácil chegar ao topo!
- Que tristeza! – alguns vizinhos diziam.
- Como pode deixar isso acontecer de novo? – questionou outro.
- Está velha mesmo! Este tipo de árvore já não tem mais jeito! – disseram outros ainda mais bravos.
A culpa pela trepadeira ter voltado foi da chuva? Ou foi do vento? Será que realmente a árvore está velha? Ou foi culpa do seu dono?
Talvez até possa ter sido o vizinho que vendo a árvore tão linda e viçosa tenha semeado a trepadeira de novo por ali. Ou o cachorro que fez um buraco muito fundo para esconder o osso que ajudou a trepadeira a subir… talvez da terra? Da minhoca?
De quem é a culpa?
Moral da história:
A depressão é uma doença que atinge atualmente mais de 120 milhões de pessoas no mundo e cerca de 850 mil pessoas morrem por ano em decorrência da doença (Portal Raízes, 2020).
As pessoas que têm essa doença, além dos sintomas que a deixam muito impotentes perante as situações cotidianas ainda sofrem do preconceito que a doença traz. Existe a culpa intrínseca por estar doente “com depressão”. Essa culpa persegue esses doentes e por vezes piora a doença e diminui as chances de buscar ajuda.
É também o motivo que pode levar ao suicídio, já que não sendo compreendido na sua doença a pessoa não se sente acolhida e entendia nas suas necessidades.
Para muitos ainda, ter depressão é sinônimo de fraqueza, para a sociedade é falta de Deus. De quem é a culpa?
Para quem está no fundo de um poço, buscar maneiras de sair do poço exige força, uma força que a doença tira.
Quem não teve depressão não sabe o quanto ela é dolorida e incapacitante, é realmente como uma erva daninha que vai tomando a vida da pessoa, a sufocando e, quando se acha que está bem, pode acontecer de novo, e de novo. As reincidivas são bastante frequentes.
Sabendo de tudo isso o mais importante é ficar ao lado do doente sem o julgar.
Quer saber mais sobre o assunto? Vai aí duas indicações de livros.
O demônio da meia noite
Conheça mais sobre este livro aqui.
O que é depressão? Um guia para crianças que convivem com pessoas deprimidas
Conheça mais sobre esse livro aqui.
Se não estiver sentindo-se bem, com pensamentos ruins, procure ajuda no posto de saúde mais próximo a sua residência, no Caps da sua cidade ou ligue no Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo número 188 (funcionamento 24 horas por dia).
0 Comentários
Fazer loginOs comentários são de responsabilidade de seus autores. Ao comentar, o usuário declara estar de acordo com nossa Política de Privacidade e Termos de Uso. Faça login para participar da discussão.
Faça login para participar da discussão sobre essa matéria.
Fazer login para comentar
