
Nestes últimos dias estive viajando, longe do Davi. Mas ao contrário do que a sociedade me faz engolir goela abaixo, ao invés de culpa eu sinto orgulho em saber que estou conseguindo trabalhar com aquilo que amo e acredito e, que Davi fica bem sem mim (olha só, ele fica com o pai e muito bem!).
Eu sei que sou privilegiada em ter essa situação de um pai que cuida tanto quando eu, que cuida bem! Que eu tenho toda uma rede de apoio. Mas não é sobre isso essa escrita de hoje. Também não é sobre um misto de sentimentos que nós mães temos quando saímos sem as crias. Queremos que eles fiquem bem quando precisamos sair, mas quando ficam bem demais nos sentimos um pouco desnecessárias. E é aí que eu quero chegar e resolvi escrever hoje: sobre ser presença na vida dos nossos filhos de maneira afetiva, acolhedora e efetiva. Mas, mais que isso dar um amor do tipo exigente para que possamos nos fazermos desnecessários quando preciso. Que quando nossos filhos estiverem sozinhos com os amigos, não achem natural dar pauladas em cachorros, atear fogo em pessoas em situação de rua, jogar pedras em garotas de programa ou falar asneiras para as garotas na balada tentando beijá-las sem consentimento. É sobre criar filhos preocupados com a dor alheia, com princípios, afetivos, que podem chorar quando se machucam, que podem expressar quando sentem medo.
Escrevo sobre isso por causa do Davi e também por causa de todos os meninos que não puderam receber beijos de suas mães ao deitar porque isso os fariam menos homens (e isso não é coisa de antigamente meu senhor e minha senhora). Não preciso falar de como a sociedade impõe aos meninos serem violentos e que sem limites essa violência torna-se cotidianamente aceitável socialmente.
Você já conheceu alguém que só faz a coisa certa quando sabe que está sendo olhado? (isso não é um transtorno mental sabia?)
Fica o questionamento: Quem tem o direito de tirar a vida de outro alguém?
Voltei da viagem escutando o audi livro “A revolução dos Bichos” de George Orwell, um clássico do século XX. Eu já havia lido este livro, mas depois das últimas notícias resolvi lê-lo com os ouvidos dessa vez.
Fiquei novamente chocada com o quanto este livro pode ser tão atual se foi escrito em contexto e épocas tão diferentes da nossa. Na verdade, é uma fábula que fala sobre vários assuntos, mas alguns deles é a corrupção pelo poder, a manipulação da informação e a hipocrisia das elites. Uma frase emblemática do livro traz assim “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros” – o que seria uma crítica moderna as desigualdades sociais.
Terminada essa leitura indignante passei para a próxima, pois teria mais tempo de viagem. Resolvi escutar o vencedor do Jabuti 2024 “O sentido da vida” de Contardo Calligaris.
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Calligaris diz no livro que para ele, ter uma vida interessante significa viver plenamente. Isso pressupõe poder se desesperar quando se fica sem alguma coisa que é muito importante para você. É preciso sentir plenamente as dores: das perdas, do luto, do fracasso. Ou seja, é passar por frustrações.
No restante da viagem, quase na hora de reencontrar o Davi fiquei tentando ligar uma leitura a outra, livros tão distintos e fiquei chocada com o tanto que eles se complementam.
Calligaris diz que acha um tremendo desastre esse ideal de felicidade que tenta nos poupar de tudo o que é ruim. E não é isso que estamos fazendo com nossos filhos, os poupando das frustrações e tristezas naturais da vida? Será que estamos mostrando qual o limite entre o certo e o errado e que tudo que fazemos tem consequências? Deixou a tampa do vaso aberta é uma hora sem vídeo-game; não enxugou a louça, dois dias sem celular. E quando as crianças não aprendem a ter responsabilidades desde pequenos, pois sempre tem quem faça por elas?
As vezes queremos dar tudo o que não tivemos aos nossos filhos, mas erramos. As vezes damos tudo, menos limites. Precisamos de limites com afetividade, mas mesmo assim limites. Precisamos ser o adulto que traga de forma clara o que é certo e errado. Eu digo traga, porque não é só quando impomos limites ou com o que dizemos que nossos filhos estão aprendendo e sim, muito mais na observação. A falta de limites é um tipo de abandono, mas ela também é aprendida e socialmente aceita, principalmente nas classes mais privilegiadas.
Quando cheguei em casa da viagem, Davi estava me esperando. Sorridente veio me abraçar. Deixei a mala sem ser desfeita de lado junto com o cansaço de mais de 12 horas para voltar da cidade onde eu estava a trabalho e fui ler para ele dormir, para que na próxima vez que eu precise me ausentar de perto dele, eu possa ser novamente desnecessária. E, a cada dia mais, até que ele fique um homem grande e se sua escolha for ter filhos, que ao voltar do trabalho, também deixe sua mala de trabalho e o cansaço de lado e vá ler para eles dormirem.
"Somos feitos de cotidiano: nós, saúde mental e literaturas". Adriana Moro é escritora, enfermeira especialista em saúde mental e pós-doutora em saúde pública, com nove livros publicados. Mãe do Davi, amante da vida, da natureza e das pessoas.
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