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sábado, 26 de setembro de 2026
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Conscientizar sobre autismo também é falar de mães sobrecarregadas

Uma licença paternidade de 20 dias pode ajudar nisso?

6 de abril de 2026 · 11:46 · Atualizada em 6 de abril de 2026 · 11:46 · 6 min de leitura

Foto: Divulgação
Sancionada a nova Lei 15.371/2026 que amplia gradualmente a licença-paternidade de 5 para 20 dias até 2029.
O mês de março é marcado pelo dia o Dia Mundial de Conscientização do Autismo celebrado em 2 de abril.

O que essas duas coisas têm em comum?

Tudo!

As maternidades, principalmente as atípicas são meu objeto de pesquisa desde 2006, quando iniciei uma pesquisa sobre como era a amamentação de crianças com síndrome de Down. E, uma das coisas que mais me impactaram nesses anos todos foram os relatos das mulheres que são abandonadas pelos companheiros quando é descoberto que seu filho tem algum tipo de deficiência.

O abandono paterno no autismo é uma realidade grave e frequente no Brasil, onde estudos indicam que 78% a 80% dos pais abandonam a família após o diagnóstico de deficiências (Jornal da USP, 2020).

“O que eu posso fazer é fumar!” - Disse uma vez, uma dessas mulheres pra mim. Sua criança tinha 30 anos.

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Com cinco meses, cinco anos, até a sociedade dá um certo apoio, mas e depois? As crianças viram adultos e essas mulheres envelhecem. Um envelhecer solitário, preocupado 24 horas por dia. Quem cuida dessas mães que tanto cuidam?

No meu romance de estreia “Não me chame de mãe”, tento retratar um pouco dessa solidão materna dentro da maternidade, e principalmente a atípica.

Esse processo que muitas mulheres com maternidades atípicas passam eu chamo de duplo abandono. Algo que impacta muito a saúde mental dessas mulheres.

A mãe que recebe o diagnóstico de qualquer alteração na saúde do filho passa por um sentimento forte de culpa, acaba abandonando o seu próprio cuidado para dedicar-se ao filho. A personagem do meu livro “Não me chame de mãe” passa pelo duplo abandono, pois abandona a si mesmo quanto pessoa merecedora de cuidados, assim como o abandono do companheiro, que não sabemos por quais motivos a deixou.

Apesar de ser ficção, é a dura realidade que verificamos no dia a dia nos acolhimentos de saúde mental. A depressão encontra-se como um dos principais diagnósticos, assim como o abuso de substâncias como o cigarro e até mesmo a automutilação e desejo intenso de sumir.

Lá em 2006 as mulheres entrevistadas relatavam que alguns dos companheiros as abandonavam porque elas precisam dedicar-se mais aos cuidados do filho “especial” (e os abandonavam), assim como alguns até mesmo recusavam-se a reconhecer a paternidade alegando adultério pela condição diferente da face das crianças, olhos puxados, etc. Parecem ser situações absurdas, mas ainda vemos coisas assim acontecendo, quando a “água começa a entrar ” muitos companheiros pulam do barco, inclusive sem auxiliar financeiramente a mulher e infelizmente o Estado ainda não tem políticas públicas suficientes e eficazes para auxiliar no cuidado a essas crianças, assim consequentemente também as próprias mulheres que são esquecidas nas recepções dos consultórios médicos sendo reduzidas apenas a ser “a mãe de fulano”.

As mulheres, apesar de serem as que mais buscam cuidado de saúde no SUS, ainda só o fazem quando já não estão dando conta da demanda do cuidado da casa, e “dos outros”. Quase nunca elas buscam ajuda porque não estão conseguindo cuidar de si mesmas. Dessa forma, o que mais vemos são mulheres com cargas de trabalho exaustivas, com dupla jornada para muitas, com dificuldade em fazer o mínimo para si. Já não dormem bem há muito tempo, muitas mantem relações sexuais forçadas, porque já não tem mais libido, e passam por abusos nas relações profissionais e pessoais. A grande maioria não conta com ajuda de rede de apoio e/ou de parceiros. São as principais mantenedoras da casa, sendo também aquelas que tiveram seus processos educacionais interrompidos, possuindo pouca ou nenhuma instrução. São adoecidas pela ansiedade, pela insônia, obesidade, tabagismo, alcoolismo com bastante frequência, sofrendo muito de depressão e desejos de autoextermínio.

No livro “As meninas que nunca perderam a graça” que está completando 10 anos de publicação e será relançado com nova capa na Bienal da Bahia ainda neste mês de abril, eu conto várias dessas histórias. “É um convite para despirmos nossos preconceitos e redescobrirmos o valor da empatia, aprendendo que o tempo do afeto não se mede pelo relógio, mas pela coragem de se deixar tocar pelo outro. Um grito de sobrevivência que se transforma em acalanto, eternizando histórias que o mundo, por vezes, esquece de ouvir”. - Disse a escritora Analu Leite que escreveu uma das orelhas da nova edição.

Precisamos falar que a maternidade mesmo quando acompanhada de uma rede de apoio, como foi a minha, por si só já é exercida na solidão, pois há coisas na relação com o bebê que só provêm da mãe. Como comenta Winnicott, a mãe e o bebê são um só até por volta do terceiro mês. O processo de gestação e o parto geram mudanças profundas na biofisiologia da mulher, isto por si só já faz com que a mulher esteja em uma situação vulnerável. Se formos somar ainda as dificuldades das mulheres que não tem rede de apoio como eu vivencio no meu trabalho como enfermeira, isso se potencializa, o que na pandemia ficou escancarado, principalmente nas mulheres mães de filhos em situações atípicas.

Outro ponto bastante importante que tentamos discutir no livro “Não me chame de mãe” é que as pessoas no geral tendem a confundir o desejo da mulher de continuar exercendo outras funções e gostando delas com o desejo de ser mãe. Quando a mulher vira mãe ela não pode mais reclamar, ela precisa estar sempre a disposição de uma sociedade que se recusa a olhar para ela como pessoa com outras necessidades e isso eu senti na pele. A maternidade não é flores. Beijinhos em pés gordinhos e fofos são confundidos com a exaustão de noites em claro, choro intenso, cólicas, mamilos dilacerados em muitos casos, ficar a disposição 24 horas por dia para cuidar de um outro ser.

Há muita resistência em separar a divindade da maternidade daquilo que realmente a mulher sente e até tem vergonha de falar, pois agora ela é mãe, precisa ser forte. Como se no momento que ganha este bebê recebe um bastão de força absoluta. Contar isso tudo que vivi e vi, por meio da escrita foi como que um compromisso da minha parte como mãe e mulher.

Estes livros são uma crítica social a redução da mulher a maternidade, dessa forma acredito que para os homens estes livros apontam pistas de como terem um olhar mais empático com as mulheres em situação da maternidade.

Lendo “Não me chame de mãe” eles terão contato com a falta de políticas públicas de cuidado a cuidadora e rever o seu papel de homem quanto pai e a sua responsabilização no cuidado, também exercitar a ética e moral quando forem falar de um corpo que não é seu.

Aí entra a licença paternidade. Talvez aumentando a quantidade de dias que o homem “deve” ficar com o filho possa auxiliar aqueles que desejam ser apoio nesse momento tão delicado e importante que é o nascimento, saudável ou com necessidades especiais e desenvolver empatia para a mulher em seu momento mãe.

No mês da conscientização sobre o autismo precisamos também falar sobre as mães sobrecarregadas dessas crianças!

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