Foto: Robson Komochena
A votação que terminou com a aprovação, por 6 votos a 5, do projeto que autoriza a destinação de áreas para a implantação de 176 unidades habitacionais em Mafra foi antecedida por uma longa discussão entre os vereadores na noite desta segunda-feira (10).
Apesar da divisão no placar, as manifestações apresentaram pontos em comum. Vereadores favoráveis e contrários ao projeto defenderam a importância da habitação para famílias que precisam de moradia. A divergência esteve principalmente na escolha das áreas na Vila Nova e nas condições da região para receber o empreendimento.
Também houve críticas, inclusive entre parlamentares que posteriormente votaram a favor, à forma como o processo foi conduzido pelo Executivo. O tempo de tramitação, a falta de diálogo, a escolha das áreas e questões relacionadas à infraestrutura e ao meio ambiente apareceram durante os discursos.
Antes da votação, 11 vereadores se manifestaram sobre o projeto. O Riomafra Mix reuniu os principais pontos apresentados por cada parlamentar.
Valdir Sokolski Junior: “Interesses individuais não devem se sobrepor aos interesses coletivos”
O vereador Valdir Sokolski Junior (Republicanos) afirmou que procurou estudar o projeto e a legislação relacionada ao programa antes de definir seu voto. O vereador citou a realização da audiência pública e lembrou que, conforme informação apresentada pela Diretoria Municipal de Habitação, Mafra possui déficit aproximado de 1,7 mil moradias.
“O artigo 6º da Constituição Federal descreve, entre outros, o direito à moradia digna como um direito social”, afirmou.
Ao defender a análise do interesse coletivo, declarou: “Ouvir a comunidade é muito importante. Entretanto, é discricionariedade administrativa do Poder Executivo destinar áreas públicas para as benfeitorias que entender ser de melhor relevância. Interesses individuais não devem se sobrepor aos interesses coletivos”.
Sokolski também abordou as exigências de infraestrutura previstas para o empreendimento e mencionou a situação ambiental existente na área. Ao final, disse ter chegado à definição do voto após analisar leis, portarias e documentos relacionados ao projeto. “Sei que irá agradar uns e desagradar outros, mas o meu voto é tranquilo”, afirmou.
Vanderlei Peters: “Não pensem que só vem coisa ruim dentro do condomínio”
Já Vanderlei Peters (Podemos) comparou a discussão da Vila Nova com a implantação de conjuntos habitacionais na Vila Ivete, onde reside. Ele citou empreendimentos que concentraram centenas de famílias em uma mesma região e lembrou das dificuldades enfrentadas para conseguir melhorias na infraestrutura.
Ao mesmo tempo, argumentou que os condomínios contribuíram para o crescimento econômico da região. “Não pensem que só vem coisa ruim dentro do condomínio. Não vem, não. Tem muita gente boa de coração”, declarou.
Peters também mencionou famílias que precisam de moradia e pessoas que comprometem parte significativa da renda com aluguel. “Nós não podemos desrespeitar a Constituição Federal e o seu artigo 6º, que dá o direito à moradia ao cidadão que mais necessita”, afirmou.
João Carlos Reiser: “Eu não posso ser egoísta e devolver esse dinheiro”
João Carlos Reiser (Republicanos) relacionou sua decisão à experiência na área da saúde e ao contato com famílias em situação de vulnerabilidade. “A gente vem em contato diariamente com vários desafios, com crianças doentes, idosos doentes, famílias desestruturadas”, disse.
O vereador afirmou que muitas pessoas vivem em condições precárias e destacou o impacto que as 176 unidades poderiam representar para essas famílias.
Reiser também se dirigiu aos moradores da Vila Nova que defendiam a rejeição do projeto. “Eu peço desculpa de coração mesmo. Muitos vieram pedir para mim essa posição, mas [...] o povo com quem eu visito clama por estas casas”, declarou.
Ao justificar sua decisão, completou: “Eu não posso ser egoísta e devolver esse dinheiro, tirando o direito deles”.
Nereu Carvalho: “Área comunitária é da comunidade, mas moradia é dignidade”
Nereu Carvalho (Republicanos) iniciou sua manifestação lamentando o tempo levado para que o projeto chegasse à decisão. “É uma pena que deixaram passar tanto tempo para só agora, em cima do prazo, esgotar o tempo para aprovação desse projeto. Acho que teria uma chance, sim, de mudar essa área”, afirmou.
O vereador disse compreender a preocupação dos moradores da Vila Nova e afirmou concordar com os questionamentos ambientais, mas ponderou que a votação tratava da autorização para a doação da área.
Nereu também relatou ter vindo de um bairro simples e ter convivido com pessoas em situação de precariedade. “Área comunitária é da comunidade, mas moradia é dignidade. E dignidade precisa ser para todos. Não importa se é baixa renda ou melhor renda”, declarou.
Miriam Schloegl: “A Prefeitura precisa escolher outras áreas para implantar essas torres”
Miriam Clara Schloegl (PRD) defendeu que as 176 unidades habitacionais sejam construídas, mas em outras áreas de Mafra. “Eu não sou contra o projeto. Eu, como vereadora, representante do município de Mafra, eleita com 778 votos, eu digo que eu sou a favor de moradia, sim. Eu sou 1000% a favor de moradia”, afirmou.
A vereadora argumentou que os terrenos escolhidos possuem proteção por serem áreas comunitárias e poderiam ser utilizados para equipamentos de educação, saúde e lazer. “Essas áreas [...] são áreas comunitárias, são áreas da comunidade vilanovense. Não são áreas ociosas que simplesmente o município pega e doa para o FAR”, declarou.
Miriam também questionou o impacto da concentração das 176 famílias em 11 torres na mesma região. “Vocês conseguem imaginar o boom nesse bairro, o impacto social?”, questionou.
Para ela, a alternativa seria distribuir o empreendimento por outras regiões. “A prefeitura precisa escolher outras áreas para a implantação dessas 11 torres”, defendeu.
Jonas Heide: “A culpa tem nome, sobrenome e CPF: chama-se Emerson Maas e Carlos Nitz”
Jonas Heide (PL) fez uma das manifestações mais duras da discussão. Mesmo votando posteriormente a favor do projeto, o vereador criticou fortemente a condução do processo e direcionou cobranças ao Executivo.
Jonas afirmou que o projeto “adormeceu em sono esplêndido” na Câmara e questionou informações apresentadas durante a audiência pública. “Da tribuna dessa Casa, tribuna que não deveria vir pessoas aqui para mentir, vieram pessoas aqui para mentir”, declarou.
Em outro momento, o vereador responsabilizou diretamente o ex-prefeito Emerson Maas e o atual prefeito Carlos Nitz pela situação envolvendo o projeto. “A culpa, e como eu sou o mais bocudo aqui, culpa de qualquer lado, tem nome, sobrenome e CPF, minha gente. Chama-se Emerson Maas e chama-se Carlos Nitz. Incompetentes, relapsos, relaxados, sem compromisso com a sociedade vilanovense”, disparou.
Apesar das críticas, Jonas relatou sua própria história com habitação popular. Contou que, após a separação dos pais, sua mãe ficou com seis filhos e recebeu uma casa em Rio Negro. “Me desculpem os moradores da Vila Nova, mas eu tenho que votar pelo que eu sou, pelo meu coração, com dor nele, mas eu tenho que votar pelo que eu sou. Eu não posso trair a minha história”, afirmou.
Rafael Cavalheiro: “Eu voto hoje com o regulamento debaixo do braço”
Rafael Cavalheiro (MDB) destacou que a decisão sobre o projeto não era simples e pediu respeito aos diferentes posicionamentos. “Não é uma tomada de decisão nada fácil”, afirmou.
O vereador também avaliou que a proporção alcançada pela discussão poderia ter sido diferente caso houvesse maior diálogo. “Esse projeto é um projeto que tomou uma envergadura grande. Não precisaria tomar se a gente tivesse tido um diálogo um pouquinho mais de sabedoria, de discernimento entre o Legislativo e Executivo”, declarou.
Ao falar sobre a forma como tomaria sua decisão, utilizou uma comparação com o esporte. “Hoje eu, especificamente eu, vereador Rafinha, não posso votar com o coração, mas sim, como a gente fala no meio esportivo, eu voto hoje com o regulamento debaixo do braço”, afirmou.
Wagner Grossl: “Não está querendo penalizar ninguém se votar contrário”
Wagner Grossl Ramos de Oliveira (PL) afirmou ser favorável ao direito à moradia, mas apresentou ressalvas ao modelo escolhido. “Sou totalmente a favor que as pessoas tenham dignidade de uma moradia”, declarou.
Por outro lado, questionou a concentração de famílias em um mesmo empreendimento. “O modelo adotado, que muitas vezes para mim não é o mais adequado, que é nada mais do que aglomerar pessoas, tem sido cada vez mais problemático”, afirmou.
Wagner também criticou a falta de diálogo por parte do Executivo. “Se há um gestor que realmente quer lutar pelo povo, traz os vereadores para o seu lado, senta e conversa”, disse.
O vereador pediu ainda que a votação não fosse interpretada como uma disputa entre quem defendia ou não as famílias. “Não está querendo penalizar ninguém se votar contrário. Não está querendo afagar ninguém se votar a favor”, declarou.
Everton Demétrio: “Cadê a estrutura?”
Everton Demétrio (MDB) afirmou que vereadores procuraram o Executivo na tentativa de encontrar uma alternativa para a implantação das moradias. “Eu fui três vezes no Executivo para procurar o diálogo e verificar a situação para a gente não perder esse recurso”, afirmou.
Embora tenha reconhecido a importância do investimento e a necessidade habitacional existente no município, Everton concentrou sua manifestação nos impactos que o aumento populacional poderia provocar na região. “Cadê a estrutura de energia elétrica? Cadê a parte de mobilidade urbana? Onde é que vai ficar?”, questionou.
O vereador também mencionou a quantidade prevista de vagas para veículos e o atendimento de saúde. “Eu não vejo justo”, afirmou ao tratar da concentração de novos moradores na região.
Ronaldo Wolski: “É preciso garantir condições dignas a essas famílias e a essas pessoas”
Ronaldo de Mello Wolski (PL) iniciou sua manifestação destacando o objeto da votação. “O que nós estamos votando hoje nessa Casa é a doação do terreno”, afirmou.
O vereador concentrou parte das críticas na situação ambiental da área e também questionou a infraestrutura disponível na região. “Não podemos ignorar a falta de infraestrutura do bairro. Hoje o bairro já vem sofrendo com dificuldades dentro da saúde, dentro da educação e dentro da infraestrutura”, declarou.
Ronaldo afirmou ainda que não era contrário à construção de habitações populares. “Não sou contra as moradias, muito pelo contrário. As pessoas têm que ter cada um o seu lar, a sua dignidade”, disse.
Ao defender planejamento para o empreendimento, resumiu: “Não basta construir moradias, é preciso garantir condições dignas a essas famílias e a essas pessoas”.
Serginho Severino: “Eu não posso recusar essa verba”
Sérgio Luiz Severino (PP) classificou a decisão como difícil e afirmou que havia argumentos legítimos dos dois lados. “Hoje não há vencedores, só há perdedores aqui”, declarou.
Serginho reconheceu as reivindicações dos moradores da Vila Nova e apontou problemas de infraestrutura e questões ambientais envolvendo a área. Durante sua manifestação, anunciou ainda a retirada de uma emenda que havia apresentado para condicionar a construção à regularização dos embargos ambientais. Segundo ele, a intenção era evitar que uma eventual impossibilidade de sanar a questão ambiental fosse posteriormente atribuída à sua emenda.
Ao antecipar seu voto, Serginho relacionou a decisão à busca por recursos para Mafra. “Quem sempre correu atrás de verba não pode simplesmente agora dizer que não aceita uma verba, que não quer essa verba”, afirmou.
Apesar do voto favorável, o vereador também responsabilizou o Executivo pela situação criada em torno da votação. “Não era nós que tínhamos que estar aqui, sim ou não, e sim o Executivo que nos colocou nessa situação, que colocou vocês nessa situação”, declarou.
Como votou cada vereador
Foram favoráveis ao projeto os vereadores Jonas Heide (PL), Nereu Carvalho (Republicanos), João Carlos Reiser (Republicanos), Sérgio Luiz Severino (PP), Valdir Sokolski Junior (Republicanos) e Vanderlei Peters (Podemos).
Votaram contra o projeto os vereadores Rafael Cavalheiro (MDB), Everton Demétrio (MDB), Ronaldo de Mello Wolski (PL), Wagner Grossl Ramos de Oliveira (PL) e Miriam Clara Schloegl (PRD).
O vereador José Marcos Witt (PSDB) não participou da votação. Conforme o Parecer 103/2026, o parlamentar foi considerado impedido devido a uma possível situação de interesse particular relacionada ao vínculo de sua irmã com o empreendimento.
O presidente da Casa, vereador João Celso Cardoso (MDB), só votaria em caso de empate.
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