De volta ao Setembro Amarelo: vamos falar de saúde mental?
“Pintaram tudo de amarelo, mas esqueceram de perguntar por que tanta gente quer desaparecer.”
Foto: Magnific
Li, no Instagram, no perfil @psicodequebrada, a seguinte frase: “Pintaram tudo de amarelo, mas esqueceram de perguntar por que tanta gente quer desaparecer.” Achei esse questionamento muito pertinente e, por isso, resolvi escrever algumas reflexões a partir dele.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é uma realidade que afeta pessoas em todo o mundo e provoca importantes impactos sociais, familiares e de saúde pública. No Brasil, os registros chegam a milhares de casos por ano, evidenciando a dimensão e a gravidade desse problema.
Mas o que tem adoecido as pessoas a ponto de elas desejarem desaparecer?
Será que, em muitos casos, a pessoa realmente deseja morrer ou está tentando interromper um sofrimento que se tornou insuportável? Será que está pedindo ajuda, mas não está conseguindo ser ouvida?
Em setembro, fala-se intensamente sobre prevenção ao suicídio. No entanto, existe o risco de transformar uma questão extremamente complexa em uma campanha restrita a apenas um mês do ano.
Durante algum tempo, o Setembro Amarelo foi marcado por inúmeras palestras, campanhas e atividades voltadas diretamente ao tema do suicídio. Com o passar dos anos, porém, fomos compreendendo melhor a importância de abordar o assunto de maneira responsável, especialmente diante dos riscos associados à exposição inadequada.
Um desses riscos é o chamado efeito Werther, ou efeito de contágio. A literatura científica aponta que determinadas formas de divulgação do suicídio — especialmente quando apresentam métodos, locais, imagens, detalhes ou abordagens sensacionalistas e simplistas — podem contribuir para comportamentos de imitação entre pessoas que já se encontram vulneráveis.
Por isso, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), profissionais e instituições de saúde têm buscado trabalhar o tema a partir de outra perspectiva: a da prevenção, da informação responsável, da valorização da vida e da divulgação de possibilidades de cuidado e recuperação.
Falar sobre pessoas que enfrentaram crises, buscaram ajuda e conseguiram reconstruir suas vidas pode funcionar como um importante fator de proteção. Mostrar que uma crise pode ser atravessada, que o sofrimento pode ser cuidado e que pedir ajuda é possível pode incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.
Talvez seja necessário ampliar o olhar para além do suicídio e perguntar: como estamos cuidando da nossa saúde mental no cotidiano?
As questões relacionadas à saúde mental na atualidade são bastante complexas. Precisamos considerar não apenas o indivíduo, mas também as condições concretas em que ele vive, trabalha, se relaciona e, muitas vezes, sobrevive.
Tratar o sofrimento psíquico apenas com medicamentos, sem compreender o impacto das condições de vida, das relações sociais e do contexto em que a pessoa está inserida, pode ser insuficiente. Não se trata de negar a importância dos tratamentos medicamentosos — que são fundamentais em muitas situações —, mas de reconhecer que o cuidado em saúde mental precisa ser integral.
O corpo e a mente dão sinais quando os limites estão sendo ultrapassados: irritabilidade, cansaço extremo, alterações no sono, dificuldade de concentração, ansiedade, perda de prazer, isolamento e sensação de incapacidade podem indicar que algo não está bem.
Vivemos uma realidade marcada pelo isolamento social, pela dificuldade de pertencimento e pela fragilização dos vínculos comunitários. A pressa e a cobrança fazem parte do cotidiano. No ambiente de trabalho, a pressão pode contribuir para o esgotamento, especialmente diante de metas excessivas, jornadas prolongadas e da sensação permanente de que nunca é suficiente.
Somam-se a isso as desigualdades socioeconômicas, as experiências de violência, a discriminação, as perdas, a insegurança, a precarização das condições de vida e a ausência ou fragilidade de redes de apoio.
Esses fatores interagem de maneira complexa com aspectos individuais, biológicos, psicológicos e sociais. Não existe uma única causa capaz de explicar por que uma pessoa chega a uma situação de intenso sofrimento ou pensa em tirar a própria vida.
Esse desgaste pode se manifestar por meio de diferentes condições de saúde mental, entre elas os transtornos de ansiedade e os transtornos depressivos, que podem afetar profundamente o humor, a disposição, os relacionamentos e a capacidade de encontrar prazer e sentido nas atividades cotidianas.
Por isso, falar de prevenção ao suicídio também é falar de cuidado, vínculos, pertencimento, acesso à saúde, condições dignas de vida, trabalho, proteção social e possibilidade de construir novos sentidos para a existência.
Todos nós podemos contribuir para uma sociedade mais atenta ao sofrimento do outro.
Precisamos incentivar as pessoas que estejam passando por momentos difíceis ou por uma crise a buscar ajuda profissional e apoio em sua rede de confiança. Precisamos também aprender a reconhecer sinais de sofrimento e saber como acolher alguém que não está bem.
Às vezes, ajudar começa simplesmente por estar presente.
Escutar sem julgamentos, demonstrar empatia, evitar frases que minimizem a dor — como “isso é falta de fé”, “você precisa ser forte” ou “tem gente com problemas muito maiores” — e mostrar que estamos disponíveis para ouvir pode fazer diferença.
E, diante de uma situação de risco, é fundamental buscar ajuda especializada e acionar os serviços de saúde e de emergência disponíveis.
Setembro Amarelo não precisa ser apenas um mês para falar sobre suicídio.
Pode ser um convite para que, durante todo o ano, aprendamos a falar sobre sofrimento, saúde mental, vínculos, cuidado e, principalmente, sobre a importância de não enfrentar tudo sozinho.
Porque talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Por que alguém quer morrer?”
Mas também:
“O que aconteceu para que viver tenha se tornado tão difícil?”
E, a partir dessa pergunta, talvez possamos começar a construir respostas mais humanas, responsáveis e coletivas.
Falar sobre saúde mental é falar sobre vida.
Cuidar é também uma forma de prevenir.
Seguem duas sugestões de livros sobre o tema:

Clique aqui para ver o livro.
Não fique sozinho com suas angústias, procure ajuda!
Ligue para o CVV, que oferece apoio emocional e prevenção do suicídio gratuitamente. Conversa de forma sigilosa, sem julgamentos, críticas ou comparações. Atendimento realizado pelo telefone 188 (24 horas por dia e sem custo de ligação), chat, e-mail
0 Comentários
Fazer loginOs comentários são de responsabilidade de seus autores. Ao comentar, o usuário declara estar de acordo com nossa Política de Privacidade e Termos de Uso. Faça login para participar da discussão.
Faça login para participar da discussão sobre essa matéria.
Fazer login para comentar
