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domingo, 27 de setembro de 2026
Voltar Adriana Moro

De volta ao Setembro Amarelo: vamos falar de saúde mental?

“Pintaram tudo de amarelo, mas esqueceram de perguntar por que tanta gente quer desaparecer.”

10 de setembro de 2026 · 16:58 · Atualizada em 10 de setembro de 2026 · 17:02 · 5 min de leitura

Foto: Magnific


Li, no Instagram, no perfil @psicodequebrada, a seguinte frase: “Pintaram tudo de amarelo, mas esqueceram de perguntar por que tanta gente quer desaparecer.” Achei esse questionamento muito pertinente e, por isso, resolvi escrever algumas reflexões a partir dele.
 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é uma realidade que afeta pessoas em todo o mundo e provoca importantes impactos sociais, familiares e de saúde pública. No Brasil, os registros chegam a milhares de casos por ano, evidenciando a dimensão e a gravidade desse problema.
 

Mas o que tem adoecido as pessoas a ponto de elas desejarem desaparecer?
 

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Será que, em muitos casos, a pessoa realmente deseja morrer ou está tentando interromper um sofrimento que se tornou insuportável? Será que está pedindo ajuda, mas não está conseguindo ser ouvida?
 

Em setembro, fala-se intensamente sobre prevenção ao suicídio. No entanto, existe o risco de transformar uma questão extremamente complexa em uma campanha restrita a apenas um mês do ano.
 

Durante algum tempo, o Setembro Amarelo foi marcado por inúmeras palestras, campanhas e atividades voltadas diretamente ao tema do suicídio. Com o passar dos anos, porém, fomos compreendendo melhor a importância de abordar o assunto de maneira responsável, especialmente diante dos riscos associados à exposição inadequada.
 

Um desses riscos é o chamado efeito Werther, ou efeito de contágio. A literatura científica aponta que determinadas formas de divulgação do suicídio — especialmente quando apresentam métodos, locais, imagens, detalhes ou abordagens sensacionalistas e simplistas — podem contribuir para comportamentos de imitação entre pessoas que já se encontram vulneráveis.
 

Por isso, de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), profissionais e instituições de saúde têm buscado trabalhar o tema a partir de outra perspectiva: a da prevenção, da informação responsável, da valorização da vida e da divulgação de possibilidades de cuidado e recuperação.
 

Falar sobre pessoas que enfrentaram crises, buscaram ajuda e conseguiram reconstruir suas vidas pode funcionar como um importante fator de proteção. Mostrar que uma crise pode ser atravessada, que o sofrimento pode ser cuidado e que pedir ajuda é possível pode incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.
 

Talvez seja necessário ampliar o olhar para além do suicídio e perguntar: como estamos cuidando da nossa saúde mental no cotidiano?
 

As questões relacionadas à saúde mental na atualidade são bastante complexas. Precisamos considerar não apenas o indivíduo, mas também as condições concretas em que ele vive, trabalha, se relaciona e, muitas vezes, sobrevive.
 

Tratar o sofrimento psíquico apenas com medicamentos, sem compreender o impacto das condições de vida, das relações sociais e do contexto em que a pessoa está inserida, pode ser insuficiente. Não se trata de negar a importância dos tratamentos medicamentosos — que são fundamentais em muitas situações —, mas de reconhecer que o cuidado em saúde mental precisa ser integral.
 

O corpo e a mente dão sinais quando os limites estão sendo ultrapassados: irritabilidade, cansaço extremo, alterações no sono, dificuldade de concentração, ansiedade, perda de prazer, isolamento e sensação de incapacidade podem indicar que algo não está bem.
 

Vivemos uma realidade marcada pelo isolamento social, pela dificuldade de pertencimento e pela fragilização dos vínculos comunitários. A pressa e a cobrança fazem parte do cotidiano. No ambiente de trabalho, a pressão pode contribuir para o esgotamento, especialmente diante de metas excessivas, jornadas prolongadas e da sensação permanente de que nunca é suficiente.
 

Somam-se a isso as desigualdades socioeconômicas, as experiências de violência, a discriminação, as perdas, a insegurança, a precarização das condições de vida e a ausência ou fragilidade de redes de apoio.
 

Esses fatores interagem de maneira complexa com aspectos individuais, biológicos, psicológicos e sociais. Não existe uma única causa capaz de explicar por que uma pessoa chega a uma situação de intenso sofrimento ou pensa em tirar a própria vida.
 

Esse desgaste pode se manifestar por meio de diferentes condições de saúde mental, entre elas os transtornos de ansiedade e os transtornos depressivos, que podem afetar profundamente o humor, a disposição, os relacionamentos e a capacidade de encontrar prazer e sentido nas atividades cotidianas.
 

Por isso, falar de prevenção ao suicídio também é falar de cuidado, vínculos, pertencimento, acesso à saúde, condições dignas de vida, trabalho, proteção social e possibilidade de construir novos sentidos para a existência.
 

Todos nós podemos contribuir para uma sociedade mais atenta ao sofrimento do outro.
 

Precisamos incentivar as pessoas que estejam passando por momentos difíceis ou por uma crise a buscar ajuda profissional e apoio em sua rede de confiança. Precisamos também aprender a reconhecer sinais de sofrimento e saber como acolher alguém que não está bem.
 

Às vezes, ajudar começa simplesmente por estar presente.
 

Escutar sem julgamentos, demonstrar empatia, evitar frases que minimizem a dor — como “isso é falta de fé”, “você precisa ser forte” ou “tem gente com problemas muito maiores” — e mostrar que estamos disponíveis para ouvir pode fazer diferença.
 

E, diante de uma situação de risco, é fundamental buscar ajuda especializada e acionar os serviços de saúde e de emergência disponíveis.
 

Setembro Amarelo não precisa ser apenas um mês para falar sobre suicídio.
 

Pode ser um convite para que, durante todo o ano, aprendamos a falar sobre sofrimento, saúde mental, vínculos, cuidado e, principalmente, sobre a importância de não enfrentar tudo sozinho.
 

Porque talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
 

“Por que alguém quer morrer?”
 

Mas também:
 

“O que aconteceu para que viver tenha se tornado tão difícil?”
 

E, a partir dessa pergunta, talvez possamos começar a construir respostas mais humanas, responsáveis e coletivas.
 

Falar sobre saúde mental é falar sobre vida.

Cuidar é também uma forma de prevenir.

Seguem duas sugestões de livros sobre o tema:



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