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“É alerta, risco e sobrevivência”: voluntário conta o que viveu na guerra na Ucrânia

Relato reúne momentos vividos em ações humanitárias, ataques e histórias de famílias impactadas pelos combates.

19 de junho de 2026 · 12:16 · 6 min de leitura

Renato Denck, morador de Rio Negrinho, de 27 anos, atuou como voluntário em ações humanitárias na Ucrânia. Fotos: Renato Denck/Divulgação

 

Há mais de 1.570 dias, a Ucrânia enfrenta uma guerra que já supera, em duração, a Primeira Guerra Mundial. Em meio a um conflito que destruiu cidades, separou famílias e alterou a rotina de milhões de pessoas, Renato Denck, de 27 anos, decidiu ir além do acompanhamento à distância e embarcou para o país europeu como voluntário em ações de apoio humanitário.

 

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Natural de Rio Negrinho e atuando no mercado financeiro, Renato esteve em diferentes regiões da Ucrânia auxiliando em atividades de logística, distribuição de suprimentos, apoio a refugiados, evacuações e ações de reconstrução. Em relato concedido ao Riomafra Mix, ele contou como a experiência mudou sua forma de enxergar a vida e revelou momentos de tensão vividos em meio aos ataques.

 

Antes de embarcar para a Ucrânia, Renato já colaborava com projetos ligados ao país por meio da programação de softwares utilizados por equipes de tecnologia. “Não foi exatamente uma oportunidade programada. Eu já tinha uma viagem planejada para a Europa quando começou a surgir a possibilidade de atuar de forma mais direta junto às vítimas da guerra. Com o tempo, senti que precisava estar lá pessoalmente”, explica.

 

“Meu objetivo em ir até lá foi ajudar, mas também viver uma experiência humana que me desse uma compreensão mais real sobre o que uma guerra causa na vida das pessoas”, afirma.

 

A jornada começou em Berlim, na Alemanha. De lá, ele seguiu para Cracóvia, na Polônia, e posteriormente para Przemyśl, cidade próxima à fronteira, de onde cruzou para a Ucrânia.

 

A entrada no país foi um dos primeiros momentos que o fizeram perceber a dimensão do que encontraria pela frente. Os procedimentos de controle na fronteira, a mudança repentina de rota durante o trajeto e o clima de tensão marcaram sua chegada. “Ao cruzar a fronteira e entender a dimensão do que aquele povo estava vivendo, eu não conseguia ter certeza de que retornaria ao Brasil. A sensação era de estar entrando em uma realidade imprevisível, onde tudo poderia mudar rapidamente. Você entende que não está mais em um ambiente comum. É alerta, risco e sobrevivência”, relembra.

 

 

Os principais trabalhos aconteceram em Lviv e Kyiv, além de cidades próximas. Em Lviv, Renato atuou na organização e distribuição de alimentos, kits de higiene, lanternas, cobertores e outros itens básicos para famílias afetadas pela guerra. Também participou de ações de reconstrução em áreas liberadas, ajudando na limpeza de destroços, retirada de entulho e pequenos reparos em residências danificadas.

 

Segundo ele, são atividades que podem parecer simples para quem está distante do conflito, mas que ganham outro significado para quem perdeu praticamente tudo. “Comida, uma lanterna, um cobertor ou um kit de higiene podem significar muito para quem já perdeu tudo. É um trabalho pesado, não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Você percebe que a guerra não destrói apenas prédios; ela arranca das pessoas a dignidade, a rotina e a segurança.”

 

 

Ao longo da estadia, Renato observou diferentes reações da população diante de uma guerra que já se tornou parte do cotidiano. Enquanto algumas pessoas tentavam manter uma rotina próxima da normalidade, outras conviviam diariamente com o medo, a tristeza e a incerteza sobre o futuro.

 

“O que mais me chamou atenção foi a firmeza deles. Eles amam ser ucranianos. Amam o país, a cultura, a identidade e tudo o que aquilo representa. Existe uma força muito grande naquele povo. Eles simplesmente seguem porque precisam seguir”, explica o rio-negrinhense.

 

Um dos episódios mais difíceis da viagem aconteceu durante a madrugada de 14 de maio, em Kyiv. Renato estava hospedado em um apartamento no oitavo andar quando a cidade foi alvo de ataques. As sirenes soaram e, pouco depois, os estrondos passaram a ser ouvidos cada vez mais próximos.

 

“Ouviam-se sirenes e explosões. Aquilo se aproximou e já estava a poucos quilômetros do apartamento onde eu estava. Em instantes, você ouve como se fosse uma chuva de granizo, mas eram destroços causados pelas explosões que caíam sobre telhados e sacadas. Em situações assim, você começa a entender o limite entre estar vivo e estar vulnerável.”

 

Naquela noite, 24 civis morreram em Kyiv em decorrência da onda de mísseis, entre eles três meninas de 12, 15 e 17 anos. Pelo menos 48 pessoas ficaram feridas.

 

Após os ataques, voluntários e organizações se mobilizaram para prestar apoio às vítimas. Renato participou da distribuição de kits de sobrevivência e auxiliou equipes que já atuavam nos locais atingidos.

 

Experiência no país foi marcada por desafios e momentos de forte impacto emocional.

 

A convivência diária com os riscos também deixou marcas psicológicas. Segundo ele, com o passar do tempo, o corpo e a mente entram em um estado constante de alerta. “Você já não consegue descansar, não se alimenta direito, fica em hipervigilância. Com o passar dos dias, você entende que o risco é o mesmo enfrentado por qualquer civil local. Existem drones, mísseis, minas e situações que podem mudar tudo em instantes. A saudade de quem você ama também pesa de um jeito diferente, porque não é apenas distância; é distância somada ao risco. Você precisa sentir, mas continuar funcional.”

 

Entre todas as lembranças que trouxe da Ucrânia, uma permanece especialmente viva. Durante uma evacuação, Renato encontrou uma menina de aproximadamente 12 anos acompanhada da mãe. “Em certo momento, ela me perguntou algo como: ‘Por que você não vem com a gente? Aqui não é seguro. Faz tempo que eu não vejo meu pai’. Aquilo me marcou profundamente. Mesmo vivendo aquela realidade, ela ainda demonstrava preocupação comigo”, conta.

 

A conversa continuou com a mãe da menina. “Desesperada, a mãe me disse: ‘Temos vivido dias terríveis aqui, porque na minha cidade vimos muitos mártires e foi chocante para nós. Nunca tínhamos visto tantos. Espero que você também tenha tido bons momentos na Ucrânia’”, relembra Renato.

 

Segundo ele, em determinado momento, a mulher baixou o tom de voz para que a filha não ouvisse o restante da conversa. “Sinceramente, eu nem tenho esperança. Estou apenas tentando viver o momento, porque parece que quanto mais distante, pior fica”, disse a mãe.

 

Renato conta que então perguntou se ela ainda sentia medo diante da situação. “Ela respondeu: ‘Agora não. Aceitei essa realidade. É melhor para mim e para a saúde da minha filha ser positiva e não me preocupar’.”

 

 

O retorno para casa também trouxe desafios. Depois de deixar a Ucrânia, passar novamente por Berlim e retomar a rotina, Renato percebeu que parte de seus pensamentos continuava ligada às pessoas que permaneceram no país. “As pessoas falam de trabalho, contas e problemas cotidianos, enquanto sua cabeça ainda está presa aos estrondos, às sirenes e às pessoas que ficaram.”

 

Apesar das dificuldades e dos riscos enfrentados, ele afirma não se arrepender da decisão de ter seguido para a Ucrânia. Segundo ele, toda a ação voluntária foi custeada com recursos próprios, e a certeza de ter contribuído da forma que estava ao seu alcance é o que lhe traz tranquilidade ao olhar para trás.

 

As experiências vividas em meio à guerra continuam influenciando sua forma de enxergar o mundo e também os planos para o futuro. “Tenho vários projetos em mente. Essa experiência me ensinou muita coisa, tanto sobre o mundo quanto sobre mim mesmo. Acredito que parte do que vivi pode servir para projetos futuros, inclusive em áreas ligadas à ajuda humanitária, tecnologia, organização, educação e apoio a pessoas em situações vulneráveis”, finaliza.

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