
A paciência realmente não é uma das minhas qualidades, mas se tem coisa que me deixa mais impaciente e estressada é você estar com uma criança com febre de madrugada e o conta-gotas do frasco do antitérmico demorar um ano pra cair uma gota. Pior é que com a idade do Davi ele precisa de 20 gotas e daí a pessoa aqui, de madrugada pensou estar de óculos e não estava, e não conseguia enxergar as gotas.
Meio dormindo a vontade de arremessar o frasquinho milagroso é intensa, mas a lembrança de que sou mãe e o mínimo de controle me cabe é mais forte. Que bom! Aproveitei o século que durou conseguir as 20 gotas pra pensar no tempo.
Davi faz 5 anos este mês e mesmo vivenciando os cuidados dele diariamente de forma intensa e amorosa parece que o tempo voou. Você tem essa impressão também, que para coisas que queremos rápido o tempo demora a passar e aquelas boas e agradáveis ele passa voando?
É assim com o Natal né?! Eu amo Natal e acho que é a época mais agradável do ano. Mas é só arrumar os enfeites na árvore que o Papai Noel já chega. E puff, passou o Natal e estamos nós enlouquecidos com o ano novo, querendo resolver a vida. Assim nascem os pactos pro novo ano. Tipo "Contrato de Natal" - Tomar mais água, fazer exercício, achar um novo emprego.
Nesse levantamento de coisas verifiquei que faz muito tempo que não lia nada leve. Um romance desses românticos. Aí comprei o livro da Malu Simões com esse nome "Contrato de Natal".
Na espera pelo livro (e olha o tempo dando sua graça) o correio entrou em greve e o livro não chegou pro Natal. Resultado: não pude levar a leitura leve pra nossas curtas férias no litoral.
Mas é justo quando eu precisava que o livro chegou (depois que desfiz a árvore e a loucura do ano ia começar). Me peguei imersa em uma história leve, de superação, de voltar as raízes, de amor ao próximo e amor romântico. O celular ficou de lado e o tempo demorou a passar. Tivemos um ótimo final de semana. Fizemos muitas coisas legais. Eu li nos momentos que Davi brincava sozinho, estava assistindo ou a noite depois que ele dormiu (as leituras me relaxam). E foi assim que em dois dias terminei o primeiro livro do ano com sucesso e com um gostinho de uma época na qual eu lia mais romances românticos, que eu não era tão endurecida.
É o tempo nos endurece! As situações da vida. Mas temos nossa parte nisso tudo. Será que no meu "Contrato de Natal" desse novo ano de 2026 não caberia ser mais flexível, fazer mais coisas que me dão prazer, "ser" mais leve? (um pouco mais romântica talvez?).
Malu me fez lembrar da adolescência, quando lia por ler, por puro prazer. E lembrei do que escreveu Ana Rusch em sua Substack, "por que todo mundo precisa estar lendo as mesmas coisas? Não ler os clássicos me deixa menos intelectual? Que chato isso!" (mais ou menos isso). E se estende pra tudo né?! Livros, esportes, roupas... não precisamos fazer o que todo mundo está fazendo, o que está na moda. Então resolvi que esse ano vou ler mais romances desse tipo (preciso comprar!). Vou deixar que a leitura não seja uma obrigação pra diminuir a pilha de livros novos que tenho pra ler, pra justificar pro marido a compra de um novo livro (hehehe).
Estou desejando o tempo... Que nosso tempo possa ser como o conta-gotas acoplado no frasco do antitérmico, durar muito pra passar. Que possamos desacelerar em 2026 (não porque todo mundo tá postando que tá fazendo - detox em spa, etc). Que possamos redescobrir em nós coisas que nos deixavam leve, como foi pra mim ler "Contrato de Natal". Lembrar que já fui romântica, que já tive menos pressa, que já vi uma gota de remédio cair sem querer voltar a dormir. E sim, quando aprendi lá no curso técnico de enfermagem como funcionava esse tipo de frasco, eu olhei a gota caindo com paciência e esperança (estava aprendendo a profissão da enfermagem que tanto amo).
Bora olhar a gota cair com paciência e esperança? E quem sabe ler sobre algo que você goste? (mais textos como este) Vale até ler a bula do remédio do conta-gotas!
"Somos feitos de cotidiano: nós, saúde mental e literaturas". Adriana Moro é escritora, enfermeira especialista em saúde mental e pós-doutora em saúde pública, com nove livros publicados. Mãe do Davi, amante da vida, da natureza e das pessoas.
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