Entre a tainha e a Linguiça Blumenau, Brasília mostra que não conhece Santa Catarina
Os dois casos alimentam a percepção de uma ofensiva burocrática - e até política - contra manifestações culturais profundamente enraizadas no Estado.
Fotos: Divulgação
Santa Catarina assistiu nos últimos dias a dois episódios que, embora distintos, carregam uma mensagem semelhante: decisões tomadas em Brasília continuam ignorando particularidades econômicas, culturais e históricas do Estado.
O primeiro caso envolve a pesca artesanal da tainha. Após apenas 38 dias de safra, o Ministério da Pesca determinou o encerramento da captura por arrasto de praia ao considerar atingidos 90% da cota estabelecida para a temporada de 2026. A decisão provocou revolta entre pescadores e comunidades litorâneas. Não se trata apenas de uma atividade econômica. A pesca da tainha faz parte da identidade catarinense há mais de dois séculos, movimenta famílias inteiras e preserva tradições transmitidas entre gerações.
A reação do Governo de Santa Catarina foi imediata. O governador Jorginho Mello (PL) autorizou medidas judiciais para tentar reverter a decisão federal. O argumento é simples: a aplicação fria de números e cotas não pode desconsiderar a realidade de quem vive da pesca artesanal e mantém viva uma das manifestações culturais mais marcantes do litoral catarinense.
O segundo episódio ocorreu no setor alimentício e atingiu um símbolo da colonização alemã no Estado: a Linguiça Blumenau.
A tentativa de enquadrar o produto em parâmetros criados para embutidos convencionais colocou em risco características que fazem parte de uma receita preservada há mais de 125 anos. O problema não estava na qualidade ou na segurança alimentar do produto, mas na aplicação de critérios que não consideravam as particularidades de um alimento reconhecido como patrimônio cultural e detentor de Indicação Geográfica concedida pelo INPI.
Diante da reação do setor produtivo, o Governo de Santa Catarina acabou revogando a norma estadual que reproduzia a exigência federal. Foi uma decisão acertada. A preservação da tradição não pode ser confundida com resistência à fiscalização. É perfeitamente possível garantir segurança sanitária sem descaracterizar produtos que representam a história e a identidade de um povo.
Se os episódios da tainha e da Linguiça Blumenau fossem casos isolados, poderiam ser tratados apenas como divergências administrativas. Mas, vistos em conjunto, deixam uma impressão difícil de ignorar: a de que Brasília conhece pouco a realidade catarinense e, pior, demonstra pouca disposição para compreendê-la.
Santa Catarina não pede tratamento especial. Pede respeito. Respeito ao pescador que há gerações mantém viva uma tradição centenária. Respeito ao produtor que preserva uma receita reconhecida nacionalmente como patrimônio cultural.
O Governo Federal precisa entender que Santa Catarina não é apenas mais um número em planilhas ou relatórios técnicos. É um Estado que produz, preserva sua cultura, gera riqueza e ajuda a sustentar a economia nacional.
E cada vez que uma tradição catarinense é colocada em risco por decisões centralizadas, cresce entre os catarinenses a percepção de que, em vez de parceiro, Brasília tem se comportado como adversário.
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