Esta da foto é aquela que um dia você violentou
Infelizmente não temos o povoado de Urânia criado por Dia Barbara Nobre para nos refugiar.
Foto: Magnific
Na semana passada resolvi ir na farmácia a pé. Queria me exercitar um pouco, já que tudo fazemos de carro. Eram 18h, mas já estava escuro. Coloquei o celular no bolso, um tênis no pé e fui. A farmácia não dava 1 km da minha casa. Moro no centro de uma cidade de 35 mil habitantes, o que eu deveria temer?
Infelizmente me veio aquela sensação horrível que toda mulher já deve ter sentido. Pensei que alguém poderia ver que eu estava com o celular no bolso de trás da calça e se aproveitar para pegá-lo. Esse sentimento foi aumentando e eu fui aumentando a velocidade dos passos. Uma coisa meio louca!
Na volta da farmácia fiquei lembrando de quando eu tinha meus 17 anos e as 23h todos os dias voltava sozinha a pé do curso técnico de enfermagem que eu fazia no centro da cidade (outra cidade bem pequena também, 45 mil habitantes). Eu morava bem mais longe do curso do que da farmácia que fui na semana passada. Mas eu não sentia medo. Não esse medo atual. O que mudou?
Talvez seja a violência nas cidades pequenas que tenha aumentado. Muitos dirão que é porque agora tenho filho, e depois que temos filhos ficamos com mais medo. Mas eu vou dizer pra vocês que são nossas experiências negativas da vida, as pequenas e grandes violências que como mulheres estamos expostas que fazem tanta diferença também!
Comissão TSE Mulheres apoia livro que retrata histórias de violência de gênero
Quando escrevi o livro “Mulheres me contaram outro dia: histórias de violência contra as mulheres que nos fazem repensar o feminino em nós” na pandemia, eu já estava bastante machucada. Lá aos 17 anos já tinha passado (infelizmente) por situações de violências graves, mas nada tão brutal como quando eu literalmente fui agredida fisicamente por um “ficante” depois de adulta. É tão difícil vir aqui e falar. Muitos nem sabem, ou nem vão acreditar. Mas são tantos os casos de violência contra as mulheres que fico a cada dia mais impactada. No mês passado conheci uma educadora física que na sua juventude teve 80% do corpo queimado por seu namorado médico. Então mais uma vez eu precisava escrever sobre isso. As vezes durmo e ainda tenho pesadelos terríveis com as imagens daquilo que vivi e vi.
Pesadelos quase iguais de quando iniciei a leitura do livro “A boca do mundo” da Dia Bárbara Nobre (Companhia das Letras). Fui ficando tão chocada e tocada pelas personagens e a narrativa do livro que, o que era pra ser uma simples leitura da amostra no kindle, resultou em comprar o e-book, (que achei um pouco caro), mas não resisti. Estava no aeroporto e precisava dar continuidade aquela leitura.
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Dia Nobre se baseia em histórias reais para criar Urânia, um povoado no Nordeste do Brasil que se transforma, sob a proteção do espírito de uma jovem assassinada, em refúgio para mulheres em situação de abuso e violência. Quem dera se tivéssemos um local assim para nos refugiar.
Estamos no agosto lilás, falando de violência contra as mulheres e entre campanhas, falas e afins me pego muitas vezes atendendo mulheres vítimas de violência que não podem sair de casa (a casa na qual o agressor está), pois não temos para onde mandá-las ou como assisti-las de forma adequada.
Dados divulgados pelo ministério da justiça de Santa Catarina informam que o primeiro semestre de 2026 registrou 30 casos de feminicídio (um aumento de cerca de 36% em relação a 2025. Mais da metade (53%) dos assassinatos ocorreu aos fins de semana. SC lidera o ranking nacional de ameaças no ambiente doméstico. Foram contabilizados 17.058 requerimentos de medidas protetivas de urgência. Mas e para onde estas mulheres vão? Ainda faltam espaços e políticas públicas que contemplem todas as necessidades dessas mulheres vítimas de violência para que possam realmente ficar longe do agressor e recomeçar a vida.
Pensem, eu sou branca, tenho pós-doutorado, emprego fixo, nasci no sul do Brasil, sofri diversos tipos de violência no decorrer da vida, mesmo tendo instrução sobre o assunto não consegui fazer o boletim de ocorrência. Me faltou coragem? Não sei! É muito difícil falar sobre o que acontece com a gente nessas situações. Fico pensando nestas mulheres que eu atendo, que não tem renda, não tem rede de apoio. E nós somos uma rede de apoio efetiva? O quanto acolhemos essas mulheres? E os homens, o quanto acolhem estas vítimas? O quanto somos julgadas e julgamos?
A personagem Abigail do livro “Boca do mundo” conseguiu ser rede de apoio para outras mulheres, mas mesmo assim não conseguiu livrar sua filha Hermínia de ser vítima da violência do seu companheiro. A jovem, enfeitiçada pelo amor de um homem perverso, se entrega a um relacionamento que, por ciúmes, culminará com sua morte violenta. Seu espírito, perdido em meio a tanto ódio e injustiça, passa a vagar por aquelas terras em busca de vingança, e Hermínia se torna a santa das espancadas. “Boca do mundo” é uma ficção que entrecruza a vida de três personagens em um enredo brutal e envolvente sobre as violências diárias a que as mulheres estão submetidas, e também as maneiras possíveis de enfrentá-las e recomeçar a vida.
Bora fazer alguma coisa?
Bora recomeçar a vida?
Que o agosto lilás seja todos os dias e Urânia seja a nossa casa!
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