Feiras da agricultura familiar e a economia local: um relato da experiência dos municípios de Mafra e Porto União - Parte 2
Mais do que simples pontos de comercialização, as feiras representam um modelo que aproxima produtores e consumidores, favorecendo relações de confiança, solidariedade e reciprocidade.
Foto: Divulgação
Conforme abordado no artigo anterior, o movimento Slow Food surgiu na Itália, na década de 1980, como uma reação à expansão das redes de fast food e à crescente padronização dos hábitos alimentares. Sua proposta vai muito além de simplesmente comer devagar: trata-se de valorizar os alimentos locais, respeitar o tempo de preparo e preservar as tradições culinárias regionais.
O movimento defende o chamado “direito de saborear”, ou seja, o direito de consumir alimentos que possuam identidade, história e qualidade. Em contraposição à produção em massa, priorizam-se produtos artesanais, regionais e sustentáveis, fortalecendo sistemas alimentares mais equilibrados e responsáveis.
É importante destacar que a forma como nos alimentamos produz impactos diretos sobre o meio ambiente. O modelo alimentar predominante, baseado na produção industrial em larga escala, demanda elevado consumo de energia, utilização intensiva de recursos naturais e complexas cadeias logísticas, frequentemente envolvendo grandes distâncias entre os locais de produção e consumo.
Ao incentivar o consumo de alimentos produzidos localmente, como ocorre nas feiras da agricultura familiar dos municípios de Porto União e Mafra (SC), o Slow Food contribui para reduzir a necessidade de transporte, armazenamento e embalagens, diminuindo significativamente os impactos ambientais associados à cadeia produtiva dos alimentos.
Além disso, essa lógica fortalece os pequenos produtores, estimula a economia local e contribui para a preservação dos saberes tradicionais, abrangendo desde técnicas de cultivo até receitas típicas transmitidas entre gerações.
Nas cidades que adotam os princípios do movimento Cittaslow, a alimentação deixa de ser apenas uma necessidade básica e passa a constituir um elemento estruturante do planejamento urbano. Feiras locais, mercados de produtores, incentivos à agricultura familiar e valorização da culinária regional tornam-se instrumentos de políticas públicas voltadas à promoção da qualidade de vida. O objetivo é aproximar produtores e consumidores, estabelecendo uma relação mais consciente, sustentável e transparente com os alimentos.
Esse modelo também contribui para a redução do desperdício e para a promoção de hábitos alimentares mais saudáveis, em contraste com o consumo crescente de produtos ultraprocessados.
Voltando à realidade do Planalto Norte Catarinense, observa-se que a Feira da Agricultura Familiar de Mafra foi oficialmente criada em 2010. A iniciativa surgiu com o objetivo de oferecer aos pequenos agricultores uma oportunidade de comercializar seus produtos diretamente aos consumidores, fortalecendo sua autonomia econômica e ampliando as alternativas de abastecimento alimentar da população local.
A feira foi estruturada a partir de um projeto voltado ao incentivo da produção local e à ampliação das possibilidades de comercialização para agricultores do município e da região. Inicialmente, as atividades ocorreram em diferentes bairros da cidade. Ao longo do tempo, contudo, a constatação de que a demanda era maior na área central motivou a mudança de localização, alteração esta que contribuiu para a ampliação do fluxo de consumidores e consolidação da feira como um importante espaço de abastecimento alimentar.
Atualmente, a feira é realizada semanalmente, e reúne produtores que comercializam uma ampla diversidade de alimentos. Entre os produtos ofertados encontram-se frutas, verduras, legumes, pães caseiros, bolos, geleias, conservas e diversos outros itens oriundos da agricultura familiar. Essa variedade reflete uma característica marcante desse modelo produtivo: a diversificação das atividades agrícolas.
Diferentemente das grandes propriedades voltadas à monocultura, os agricultores familiares costumam cultivar diferentes cultivares ao longo do ano. Essa estratégia reduz riscos econômicos, amplia a oferta de alimentos à população e contribui para o equilíbrio ambiental, uma vez que diminui a dependência de um único cultivo e favorece práticas agrícolas mais sustentáveis.
Outro aspecto relevante das feiras é sua contribuição para o fortalecimento das economias locais. Quando os consumidores optam por adquirir produtos diretamente dos agricultores da região, os recursos financeiros permanecem circulando na própria comunidade. Isso gera renda no meio rural e estimula atividades econômicas relacionadas à produção de alimentos, como transporte, processamento artesanal e comércio local.
No município de Mafra, a organização da feira conta com o apoio da administração pública municipal, especialmente da Secretaria de Assistência Social, que participa da logística e da estrutura necessárias para a realização do evento. Esse apoio inclui a disponibilização de equipamentos, o transporte para montagem das barracas e uma equipe responsável pela organização do espaço.
O envolvimento do poder público tem sido fundamental para garantir a continuidade da iniciativa ao longo dos anos. Por meio de parcerias institucionais e convênios com programas governamentais, foi possível adquirir equipamentos e aprimorar as condições de trabalho dos feirantes. Barracas padronizadas, caixas para transporte de alimentos e outros equipamentos de apoio foram disponibilizados aos produtores, contribuindo para uma estrutura mais organizada e adequada.
A participação na feira também está condicionada ao atendimento de critérios específicos. Em geral, somente agricultores familiares podem comercializar seus produtos no local, mediante a comprovação dessa condição por meio de documentação vinculada aos programas de apoio à agricultura familiar e realização de cadastro junto à Secretaria Municipal de Agricultura. Essa exigência visa garantir que o espaço seja efetivamente destinado aos produtores rurais, evitando a atuação de intermediários e preservando os objetivos originais da feira.
Além disso, existem regras relacionadas aos produtos que podem ser comercializados. Em geral, são aceitos alimentos de origem agrícola ou derivados da produção familiar, como pães, bolos e conservas, desde que estejam em conformidade com as normas sanitárias vigentes. Produtos industrializados ou provenientes de grandes distribuidoras não são permitidos, reforçando o caráter local e comunitário da iniciativa.
Em Porto União, o poder público municipal desempenhou papel fundamental na estruturação das bases da atual feira: há mais de 40 anos, a administração municipal financiou a formação e o treinamento de um grupo de quatro agricultores liderados por Aires Niedzielski, cuja capacitação ocorreu em São Paulo, em uma fundação vinculada à Igreja Messiânica Mundial, instituição que tem entre seus princípios a promoção da alimentação natural, conceito bastante próximo ao que atualmente se compreende como agricultura orgânica. Foi a partir desse treinamento que a iniciativa começou a se concretizar e, gradualmente, passou a integrar a realidade do município.
A Feira da Agricultura Familiar, também conhecida como Feira Municipal, teve início em 1983. Naquele período, Aires Niedzielski estacionava seu veículo em frente ao número 321 da Rua Sete de Setembro, no centro de Porto União, onde passou a comercializar os primeiros produtos oriundos de sua propriedade rural.
Atualmente, existem aproximadamente 50 pontos de comercialização distribuídos pelo município, reunindo cerca de 90 feirantes vinculados à agricultura familiar. O espaço permanece aberto a agricultores interessados em comercializar sua produção, desde que os produtos sejam provenientes da agricultura familiar e que o produtor esteja devidamente cadastrado junto à Secretaria Municipal de Agricultura.
Ao longo do ano, a feira comercializa mais de 160 variedades de produtos. Além da produção local, também são disponibilizados produtos provenientes de outras regiões, por meio de sistemas de permuta entre agricultores. É importante ressaltar que permanece a exigência de que todos os itens comercializados sejam oriundos da agricultura familiar, preservando os princípios que orientam a iniciativa desde sua criação.
Autores:
Marcelo Boldori - Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade do Contestado (UNC). E-mail: [email protected]
Thiago Fuchs - Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade do Contestado (UNC). E-mail: [email protected]
Dr. Jairo Marchesan - Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade do Contestado (UNC). E-mail: [email protected]
Dr. Luciano Bendlin - Reitor e Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade do Contestado (UNC). E-mail: [email protected]
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