
Naquele dia comum ela pegou a mochila super pesada, que a mãe já dizia ter tijolos de tanto que as costas se curvavam. Colocou-a e subiu no carro. O pai a deixou na frente da escola.
Sentou-se no lugar de sempre. A professora fez a chamada. Gostava de seu nome iniciar com a letra A, pois sempre era a primeira a ser chamada e depois não precisava prestar atenção pra levantar a mão.
De súbito sentiu um pequeno incômodo na barriga. Pensou que quisesse fazer xixi. Interrompeu a professora e pediu pra ir ao banheiro.
Ir ao banheiro era coisa controlada naquela escola. A monitora a acompanhou. Quando baixou a calcinha foi a monitora que escutou seu grito. Tinha sangrado.
A mãe já tinha conversado com ela que aquele dia chegaria. Falou quanto especial era “ficar mocinha” e a benção de um dia poder gerar um bebê. Mas ali, olhando a mancha sentiu um desespero e os olhos marejaram. Não era mais criança.
A monitora forneceu um absorvente e uma calcinha descartável. Olhou atenta a mulher que sem nojo nenhum enrolou sua peça íntima em um papel higiênico.
- Toma! Coloca no bolso da sua jaqueta!
Fez o que foi orientada e voltou pra sala. Já tinha terminado a chamada. Estavam apresentando as tarefas de literatura. Entrou. Parecia que todos já sabiam o que tinha acontecido. Passou de cabeça baixa em frente aos colegas, mas logo depois lembrou que agora era diferente deles. “Era moça”!
Se alguém desconfiou o que houve no banheiro ela nunca soube, mas quando bateram na porta da sala entregando um buque de flores com um cartão e a professora chamou seu nome, teve certeza, a mãe já sabia.
Escrevi só pra falar do privilégio de se comemorar tornar-se "fértil". Algumas meninas ganham flores. Outras como eu, que menstruei no dia da minha primeira comunhão e por baixo do vestido branco, ganhei medo de engravidar. Medo de que descubram que você já “é mulher”!
O corpo da mulher é algo sagrado Deveria pertencer a ela mesma Mas alguns se acham no direito de o possuir Março está no fim E continua sendo difícil ser mulher Flores são lindas Mas NÓS somos mais!
In memorian a policial militar Gisele Alves Santana morta pelo companheiro em São Paulo em fevereiro; Em agradecimento a Gisèle Pelicot pela coragem de escrever sua história (aliás, livro que estou lendo e recomendo); Pelas mulheres, crianças e jovens que atendemos diariamente contando suas histórias de abuso e violência.
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