Gerações inteiras treinadas a pensar que só tem sucesso o porquinho que construir a casa de tijolos
Um “Filho De Mil Homens” e todas “As Dores Delas”.
Foto: Magnific
Hoje o texto tem cara de que sairá longo.
Tive o prazer de assistir - em doses homeopáticas que a vida de mãe permite -, o filme “O Filho de Mil Homens” baseado no livro do português Valter Hugo Mãe. De nó em nó na garganta fui saboreando com os olhos a incrível fotografia desse filme nacional. Já sabia que o livro era incrível, apesar de nunca ter conseguido ler nada do Valter Hugo Mãe por minha atenção ser super reduzida. Sempre achei que os livros dele deviam ser complexos demais pra mim, o que se confirmou com o filme.
Gente, que filme lindo, triste, representativo! Por favor, façam mais adaptações dos livros desse escritor.
Naqueles mesmos dias eu terminei também de ler o livro “As Dores Delas” da escritora Ana Raja e, o que me impressionou mais, foi como livro e filme se conversaram na minha cabeça.
Qual a ideia de família perfeita pra você?
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Pra mim essa pergunta sempre foi muito distante, pois minha família não era daquelas do modelo mais tradicional. Meu pai teve sua primeira filha aos 18 anos. Depois de 3 anos veio eu, já com outra companheira (a que chamavam concubina). Minha mãe tinha 19 anos quando eu nasci e depois criou minha irmã também. Aos 29 tinha três filhos pequenos. Apesar do modelo não convencional, aos trancos e barrancos, estamos todos criados e eles juntos.
E o que tem tudo isso haver com o filme e o livro?
É esse modelo de família, que precisa ser construído na sólida casa de tijolos que nos ensinaram que era a mais segura. Mas será?
O sucesso sempre está dimensionado pelo que temos. Ou seja, se temos uma casa ou não. Se temos um carro ou não. Se temos muito dinheiro ou não. Se casamos ou não e, se temos filhos ou não. Há um modelo. Por mais que as pessoas nos digam o contrário por aí, é difícil acreditar em felicidade sem esse conjunto de coisas.
Na história do Filho de Mil homens o único que conseguiu acolher todas as pessoas e suas diferenças foi aquele pescador que nada tinha (nada?). Foi na casa de madeira que os personagens aprenderam o que era amar e ser amado. Um diferente modelo de família, daquelas pessoas que nós escolhemos como família!
Já no livro, Ana Raja conta a história de um pai com duas famílias. Somente a segunda sabia da existência da primeira. Mais um modelo de família. Este homem estava errado? Podemos dizer que sim! Mas o que mais chama a atenção é a raiva que algumas irmãs sentem pela filha da segunda família, como se a culpa fosse dela. Na doença do pai a mágoa persiste. No enterro afundam-se. E o que levam disso? Nada! No fundo não se escolheram. Triste. Porque poderia ser diferente.
Eu que tenho uma irmã cuja mãe biológica não é a mesma que a minha acho uma perda de energia lutar contra essas coisas que acontecem na vida dos nossos pais. Não concebo minha vida sem essa minha irmã. Eu escolhi ela!
No filme, são tantas histórias de não acolhimento, que deixar de pensar do que uma família é formada não é opção. Certamente não é formada de tijolos como nos venderam a ideia com a história dos três porquinhos. Ou seja, de coisas materiais pra nos dar segurança. Sendo que o mais trabalhador é o que vence e acolhe os outros, como fez o porquinho mais velho. Na verdade, o que trabalha mais será o mais cansado, o que terá menos tempo pra viver em família (pode ser né?!).
Pra quem trabalhamos enfim? Pra casa ou pra família que está dentro da casa? A sua casa de tijolos tem amor e compreensão dentro?
Se você titubeou na resposta melhor mudar de conto. Fujamos dos “três porquinhos”. E não adianta escolher a Cinderela e a madrasta má, porque sou madrasta também, assim como minha mãe foi. E sabe o que ganhamos? Uma casa com mais um filho e não mais uma pessoa em disputa. Seguiu a linha de raciocínio?
Se for o porquinho mais velho não seja mal-humorado. Ninguém tem culpa se você não passou protetor solar e se queimou no sol enquanto trabalhava.
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