
Alguns dias atrás eu escutei uma menina linda, de uns 19 anos dizendo que quer colocar silicone no seio, fazer preenchimento de lábios, etc. Eu fiquei meio em choque e disse pra ela “você é linda como é! Não precisa de nada disso!”.
Logo depois fiquei tentando lembrar como era a Adriana de 19 anos, se ela também queria mexer na aparência, me peguei pesando como era a minha relação com meu corpo e lembrei que era péssima!
Fiquei triste pela constatação, porque era uma época que nem existiam redes sociais para fazer comparações, mas dessa forma podemos considerar que esse imperativo da beleza tem outras vias para além das redes sociais (mesmo se agravando com elas) e, que este meio é a própria cultura. E olha que durante muito tempo o corpo perfeito foi o cheinho de curvas e formas.

Em algumas culturas as meninas ainda tem de engordar para achar um marido, como é o caso da Mauritânia, um país do noroeste da África. E, na tribo Bodi, na Etiópia os homens barrigudos são celebrados como heróis, símbolos de beleza, prosperidade e alto status social, mas estes dois exemplos são somente exceções. Apesar de que em nossa cultura homem com barriga até pode ser charmoso. Já uma mulher com barriga sempre será a descuidada.
No livro “A prateleira do amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações” da escritora Valeska Zanello, aborda essas questões de como a aparência e o mal-estar referente a ela é diferente entre homens e mulheres. Para as meninas e mulheres não é preciso que ninguém as critique, pois seu olho interno já é crítico. E isso afeta diretamente na forma como homens e mulheres relacionam-se amorosamente e com o mundo ao redor.
A autora questiona: Por que a queixa na esfera amorosa é uma constante na vida das mulheres, mesmo entre aquelas que estão solteiras? Por que a “beleza” é ressentida como um capital tão importante?
É o que acabamos por ver neste fenômeno da utilização das “canetas emagrecedoras”. Não estou criticando, mas sim chamando para a reflexão. Homens e mulheres estão usando, isso é fato. Mas há uma parcela muito importante de mulheres que mesmo alcançando a magreza continuam usando a caneta porque desejam estar cada vez mais magras (e isso não sou eu quem está dizendo).
Vemos celebridades mulheres que nem obesas são e estão utilizando desses artifícios e sem intenção talvez arrastam com elas uma multidão de meninas e mulheres que veem aquilo como padrão, o que no caso não é nem a normalidade.

Indo para uma outra esfera ainda temos o problema de acesso que é muito diferenciado entre as classes sociais, fazendo com que muitas pessoas busquem esses produtos cladestinamente, principalmente sem receita médica podendo trazer graves danos à saúde.
Nesta semana a Anvisa emitiu mais um alerta para o uso desses medicamentos, reforçando a orientação de que só devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações da bula e sob prescrição e acompanhamento médico. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, existe o risco de eventos adversos graves, como pancreatite aguda, podendo causar necrose e até levar à morte. Entre 2020 e 2025 foram 145 notificações de suspeitas de eventos adversos, relacionados aos princípios ativos do medicamento e a diversos tipos de pancreatite. Do total de notificações, seis foram reportadas com desfecho de óbito.
Mas e aí, será que a beleza a qualquer custo vale todo esse risco? Será que sabemos parar na hora que conseguimos atingir a meta de peso ou queremos ficar cada vez mais magros? Será que estamos fazendo reeducação alimentar e atividades físicas juntamente com o uso desses medicamentos ou estamos aproveitando a saciedade que eles nos trazem para ficar horas sem comer com risco de subnutrição e outros problemas mais graves de saúde?
Mesmo sabendo que mexi em um vespeiro tenho ainda outras questões: Por que a ideia da magreza nos fascina tanto? Quais os problemas de saúde mental que toda esta moda pode nos acarretar?
E volto para mim e minha experiência. Fui uma criança gordinha, sofria bullying sim, e tudo isso está guardado na minha psique e hoje quando me olho no espelho ainda me passa o desejo de ter um corpo liso e magro. Tenho o que a ciência médica chama de distorção da imagem corporal. Mas existem casos mais extremos, que é o que temos visto no fenômeno do emagrecimento por essas canetas que se chama dismorfia corporal, que já passa a ser um transtorno psiquiátrico sério que não melhora sozinho e pode piorar, sendo crucial a busca por um psicólogo ou psiquiatra.
Hoje realmente a minha escrita virou um questionário filosófico e peço desculpas por isso, mas ainda preciso questionar: o que está por traz da necessidade de agradar ao seu ideal, a terceiros ou a sociedade?
Vou responder este questionamento com um bilhete para a Adriana de 19 anos, ok?
“Adri, você é amada da forma como você é! Mesmo que algum dia alguém tenha dito algo ao contrário a isso ou você tenha passado por situações em que precisou agradar para ser aceita. Mesmo que tenham te desvalorizado, tenham te xingado, de punido com qualquer aspecto relacionado ao corpo ou a alimentação. Mesmo que você tenha visto as mulheres ao seu redor tendo que cuidar de seus corpos para que seus maridos as amassem (ou elas acreditassem nisso). Mesmo que nos contos de fadas as princesas que te foram apresentadas eram magras e perfeitas e você seja tão diferente delas. Você é amada! E mesmo que você esgote as gorduras que talvez tenha, ou “ache” que tenha a mais, existem coisas que você só vai conseguir colocar para fora pela boca, elaborando. Também, talvez seja essa a necessidade de colocar coisas para dentro (da boca de forma compulsiva), para completar o vazio que todas essas coisas que te escrevi te causam. Um dia você terá 42 anos, muitas dificuldades em emagrecer porque o metabolismo depois dos 40 é péssimo. As vezes se olhará no espelho e ainda vai se enxergar um pouco distorcida, achando que precisa emagrecer, mas terá um peso saudável e uma consciência racional de que nenhuma “coisa mágica” que te apresentarem vale nossa saúde física ou mental. Sempre pense em você mesmo e em sua aparência com afeto, porque muitas coisas você poderá mudar por dentro, mas nem todas vai poder mudar do lado de fora! O mundo é cruel, um dia ser fofinho já foi moda e modas passam. Você quer passar ou permanecer?”.
0 Comentários
Fazer loginOs comentários são de responsabilidade de seus autores. Ao comentar, o usuário declara estar de acordo com nossa Política de Privacidade e Termos de Uso. Faça login para participar da discussão.
Faça login para participar da discussão sobre essa matéria.
Fazer login para comentar
