
Não pude escrever esta crônica ontem, como eu gostaria. Estava cansada. Minha distonia reclamando os dois dias de agito que tive. Uma tontura e uma dor de cabeça que não desejo pra ninguém, tirando a fraqueza nos braços e uma dor ao redor das orelhas que é própria de um corpo onde os músculos não relaxam. E aí está a nossa pauta da escrita de hoje, sobre a necessidade de segurar e soltar...relaxar e contrair... se minha fisioterapeuta pélvica estiver me lendo vai logo achar que vou falar de períneo, mas não é sobre isso. Vou falar sobre telas.
E o que relaxar tem a ver com telas? Tem a ver com um mundo hiper conectado no qual estamos criando nossos filhos. E digo nossos porque no dia a dia do trabalho com adolescentes e saúde mental uma das reclamações que mais escutamos é sobre os filhos que não saem de seus quartos, onde seus olhos não saem das telas.
Aqui não vai ser um lugar de demonizar as telas se é o que você espera. Mas também não vou falar indiscriminadamente bem delas. Na verdade, eu não gosto, e Davi com cinco anos não tem acesso a celular ou tablet, nem videogame. “Tadinho”! (escutei alguém falar aí). Na verdade, eu acho que ele terá tempo para ficar como eu e você, reféns de algoritmos e telas sendo roladas com dedos nervosos alienadamente. E sou a favor da proibição sim das redes sociais para menores de 14 anos.
Mas apesar de ser contra, ou seja, tratar o assunto com certo receio e delicadeza, sei que é um desafio constante, quase uma utopia conseguir não se utilizar desses dispositivos para nos auxiliarem. Tem pessoas que não tem outra opção. Precisam das telas para conseguir fazer as tarefas de casa. Não temos muitas vezes o tempo e/ou a disponibilidade de ficar gerindo toda uma agenda de férias (e principalmente nelas... estamos juntos! Te entendo!) para que a criança tenha atividades lúdicas, ao ar livre e sem nenhuma tela.
Nenhuma tela realmente eu acho quase impossível até porque nasci nos anos 80 e fui criada com a ajuda da TV – essa babá quase perfeita. Mas ao contrário daquilo que passava na TV de antigamente, hoje temos muito estímulo nos desenhos e as crianças da atualidade não tem a frustração de precisar esperar o seu desenho favorito. Davi mesmo já diz “mãe, é naquele de digitar as letras que tem esse desenho” – falando sobre o YouTube. Mas ele só vê na TV e com supervisão e por curtos períodos. Prefiro a TV aberta mesmo. Tenho gostado muito da programação da manhã da TV Cultura. Mas como eu disse, sou privilegiada, pois parte da manhã fico com ele em casa antes de ir para o trabalho.
Mas tem um livro que comecei a ler recentemente que me deixou bastante intrigada por falar de maneira positiva sobre as telas (não bem nessa ordem!). O título já é algo bem diferente “O GUIA DO MIDIATRA” do autor, o pediatra Michael Rich.
Conheça mais desse livro aqui!
O legal é que apesar do livro falar sobre o uso consciente das telas, nos diferentes tipos de famílias, o subtítulo me deixou tranquila com o que acredito como enfermeira de saúde mental e mãe - Como Criar Crianças Saudáveis, Inteligentes e Respeitosas em um Mundo Saturado de Telas. Lindo isso né?!
O autor apresenta uma visão realista do que é crescer em um mundo saturado de telas, mostrando como é possível ajudar as crianças e jovens a saírem de um ambiente rico em tecnologia como adultos felizes, bem informados e empáticos e não tão ansiosos. O livro dá pistas para as famílias combaterem as influências tóxicas da mídia e a sua dependência, treinar as famílias para o bem-estar digital.
Algumas coisas que anotei para tentar utilizar é exatamente o entender o que seu filho está aprendendo com a mídia; que a gente se interesse por aquilo que ele está vendo antes de simplesmente desligar ou proibir. Para os pequenos tentar intercalar momentos da criança explicar o que assistiu, desenhar, criar algo fora das telas a partir daquilo que estava assistindo. Aqui só alguns bizus pra deixar o gostinho dessa leitura.
Um outro livro que me impactou muito também a cerca dessa temática é “A geração do quarto”, do psicólogo Hugo Monteiro Ferreira. Um livro muito parecido com “A geração ansiosa”, que está muito em alta, mas baseado em uma pesquisa brasileira.
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Também me encantei pelo subtítulo desse livro “Quando crianças e adolescentes nos ensinam a amar”. O livro trata sobre conversas com adolescentes que mantém-se ‘isolados’ em seus claustros domiciliares, fazendo uso excessivo da tecnologia, dormindo mal, sem a prática regular de esportes, com sérios comprometimentos na socialização e na linguagem, por vezes apartada do contato com a natureza, com muita dificuldade de dizer o que sentem e o pior, muito disso, porque os adultos, no caso nós, não estamos muito dispostos a escutá-los.
Aí vem alguns questionamentos: Como estão nossos espaços públicos para o lazer? Eles têm segurança para os nossos adolescentes? Quais cursos estamos oferecendo para que esses adolescentes possam ter interesses em aprender um instrumento musical ou teatro? Quando chegamos em nossas casas qual a primeira coisa que fazemos: Dar um abraço em nossos jovens e perguntar como foi seu dia, sentar pra tentar ter uma refeição em família? E quando acordamos, qual a primeira coisa que fazemos senão olharmos para os nossos próprios celulares? Quando estamos assistindo algo na TV, quem de nós consegue ficar focado sem mexer no celular? Quem está conseguindo brincar com o filho sem ficar olhando constantemente para o celular? São só algumas perguntas. Essas perguntas são para mim também! Não quero demonizar e nem levar as telas ao céu, mas gostaria que pudéssemos fazer essas reflexões do quanto o uso dos nossos telefones celulares tem nos feito adoecer e assim adoecidos como poderemos criar crianças e adolescentes com hábitos saudáveis em relação a telas? Precisamos começar por nós!
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Eu sou ansiosa por natureza, mas esta semana tive a certeza de que estou no caminho certo com Davi. Não que ele não terá ansiedade nunca na vida, mas tivemos de ficar das 7h30 até as 10h30 no hospital de clínicas de Curitiba esperando uma consulta minha. Viajamos desde as 5h30 da madrugada. Ele foi junto. No local não existe espaço kids, pois os atendimentos são para adultos. O que levamos para ele? Comida, uma lousa analógica que ele pôde escrever, desenhar e jogar jogo da velha. Mas do resto, conheceu várias pessoas, aprendeu como funcionam elevadores, e na ociosidade dele (sabendo que ele é uma criança saudável), não se jogou no chão, não chorou, não fez birra. Perguntou a que horas íamos embora muitas vezes, mas aguentou firme, sem um joguinho no celular, nem um vídeozinho sequer. Testou nossa paciência? Sim! Mas aguentou firme. Eu estava certamente mais incomodada com a espera que ele e acredito muito que esse comportamento dele está sendo construído por ambientes com mais experiência, nada de celular, muita reflexão e conversa. Podemos estar errando? Podemos. Mas errando tentando acertar. E olha que ele assiste muitos desenhos legais na TV e outros que eu nem gosto tanto, hehehe. Nem céu, nem inferno, lembra?
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