Buscando por?

Procure por títulos, chamadas e conteúdo das matérias.

sábado, 26 de setembro de 2026
Voltar Outras

Nossos hábitos ou seriam nossas dicções?

Glúten, leite, carne vermelha, bebida alcóolica, aquele chocolatinho: tudo me é permitido, mas nem tudo me convêm.

25 de janeiro de 2026 · 21:20 · Atualizada em 6 de fevereiro de 2026 · 14:52 · 5 min de leitura

Fotos: Divulgação

É final de ano e eu organizei junto com minhas colegas uma Confraternização. A janta seria pizza. Contrataríamos um pizzaiolo para fazer nossa comida. O fato é que eu nem posso comer pizza, pois não como glúten. Alguém da equipe me lembrou dessa fatídica verdade “Adri, e você vai comer o que?”.

Na verdade, nesses casos eu como qualquer coisa, até sem comer fico se precisar. Pra mim o importante é a reunião, a conversa, as pessoas. Mas meu companheiro, bem querido e preocupado passou numa loja de produtos mais naturais e comprou duas pizzas sem glúten e sem lactose pra fazer lá onde seria a janta (também sou intolerante a lactose). Tudo perfeito, se não fosse nós termos esquecido as pizzas no congelador e o lugar da confraternização ser longe. Na festa de aniversário do Davi eu também não pensei em mim, em nada que eu pudesse comer para o dia. E assim os dias se passam.

Tenho que ser sincera que com o glúten tem sido mais difícil do que foi com o álcool e a carne vermelha a alguns anos atrás. Eu nunca digeria carne vermelha direito e a sua ingestão me dava diarreia. Parei. E pronto, acabou-se a diarreia! Descobri há um ano que tenho insuficiência pancreática e ficou tudo explicado.

Com o álcool lembro de ir aos lugares que sempre frequentava com música e conversa alta e a mão que estava sempre segurando um copo de chopp ou uma latinha de cerveja passou a segurar uma água com gás, limão e gelo. Não vou dizer que foi fácil, porque não foi! Mas a água meio amarga ajudava a despistar a vontade de beber algo alcoólico. E veja só, nunca nem passou pela minha cabeça me considerar uma alcoólatra. Chamam isso de “síndrome do copo vazio”. Fiquei cinco anos sem tomar nada de álcool por causa da adaptação com meus remédios neurológicos e naquela época acabei emagrecendo três quilos.

Esse assunto veio a tona, porque esse mês precisei fazer uma seleção de livros para um famoso jornal sobre o janeiro seco, que coincidência ou não também trata de uma parte da saúde mental que esquecemos, os vícios. Daí que comecei a lembrar sobre essas coisas que precisamos reduzir ou retirar das nossas vidas e como é socialmente difícil fazê-los.

Continua depois da publicidade

O primeiro livro que me veio a mente sobre o assunto foi “A saideira” da jornalista Barbara Gancia.

Compre aqui o livro da Barbara!

Neste livro autobiográfico Barbara conta como a sua dependência de álcool piorou muito a medida que seus compromissos sociais aumentaram.

Fiquei lembrando o que minha médica me disse em uma consulta sobre voltar a consumir carne vermelha tomando a pancreatina para que eu pudesse me socializar melhor. O resultado foi que não consegui voltar, mas continuo socializando.

Mas e o que é esse tal de janeiro seco mesmo? Segundo o Google “é um desafio popular que propõe a abstinência total de bebidas alcoólicas durante todo o mês de janeiro, funcionando como um detox pós-festas para repensar o consumo de álcool, com benefícios para saúde física e mental como melhora do sono, humor e disposição, mas não sendo indicado para casos de dependência severa, que exigem tratamento clínico”. Essa iniciativa surgiu no Reino Unido no ano de 2013 ganhando o apoio de vários órgãos de saúde, e veio crescendo como uma tendência no Brasil neste último ano.

Na verdade é um mês, que assim como o restante da nossa saúde mental, vem sendo dedicado a repensar nossos hábitos, e um deles é o de beber.

Foi muito interessante naquele episódio da intoxicação por metanol nas bebidas alcoólicas que muita gente estava meio desesperado com a orientação de ficar sem beber destilados até que a Anvisa resolvesse a questão. Ai já se evidencia um indicativo de que para esta pessoa o álcool além de hábito já é um vício. Fica ai o meu questionamento:

- Alguém, algum dia já te falou que você deveria beber menos? Ou melhor, alguém já se queixou de você, dizendo que fica chato demais bêbado ou que perde a noção?

São só algumas reflexões que devemos fazer, pois como uma substância lícita e utilizada para socializar é comum que mantemos o hábito para nos encaixar.

Outra literatura muito interessante e que super recomendo sobre o tema é “Família adictas” da assistente social Antonia Maria. Este livro é resultado de uma pesquisa da autora com dependentes químicos e suas famílias e deixa bastante claro que as vezes as famílias infelizmente mais atrapalham do que ajudam uma pessoa quando esta precisa parar com o vício.

Compre o livro Famílias Adictas aqui!

Na verdade não estou aqui pra condenar ninguém e nem pedir pra todo mundo parar de beber socialmente. Mas há evidências de que a sociedade e nela se inclui a família, podem piorar e até estimular o nosso consumo de álcool de uma forma não saudável.

Eu mesma voltei a beber, mas meu círculo social agora tem me ajudado muito neste quesito: só sou chamada para festas de crianças. Digo, neste quesito, porque para uma pessoa que não pode comer glúten, nem nada com lactose, qualquer lugar é um veneno e as festas de crianças estão nesta lista tóxica. Mas eu não sou de me entregar e “quem me conhece sabe” (hehehe) não vou me isolar em uma caverna por conta disso!

Adicção minha gente é a mesma coisa que vício e cada um tem os seus! É quando algo se torna compulsivo buscando gratificação imediata. Podemos citar vários outros vícios socialmente aceitáveis.

E você, já tentou parar de comer ou beber algo que gostava muito? Se não tentou acho uma boa experiência para se fazer.

Ah, e reiterando a história da pizza esquecida em casa, lá da confraternização do meu trabalho. Meu companheiro, Andreas voltou buscar. Mesmo longe. Que amor, não?!

"Somos feitos de cotidiano: nós, saúde mental e literaturas".  Adriana Moro é escritora, enfermeira especialista em saúde mental e pós-doutora em saúde pública, com nove livros publicados. Mãe do Davi, amante da vida, da natureza e das pessoas.

0 Comentários

Fazer login

Os comentários são de responsabilidade de seus autores. Ao comentar, o usuário declara estar de acordo com nossa Política de Privacidade e Termos de Uso. Faça login para participar da discussão.

Seja o primeiro a comentar

Faça login para participar da discussão sobre essa matéria.

Fazer login para comentar
Siga o Riomafra Mix no Google e fique por dentro das principais notícias de Mafra, Rio Negro e região.
Top

Preencha todos os campos obrigatórios.

No momento não conseguimos enviar seu e-mail, você pode mandar mensagem diretamente para [email protected].

Preencha todos os campos obrigatórios.

Contato enviado com sucesso, em breve retornamos.

Comentário enviado com sucesso, vamos analisar sua mensagem e em breve será exibida.

Você será redirecionado em alguns segundos!

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.

Li e aceito os termos.