
A pergunta que intitula a coluna dessa semana fiz para meus seguidores no Instagram no domingo, quando choveu praticamente o dia todo. As respostas já eram quase que esperadas por se tratar de uma rede social na qual minimamente as pessoas que têm acesso a elas possuem um aparelho celular e créditos para a Internet.
Na verdade, meus pensamentos quando estava fazendo aquela pergunta era em alguns dos nossos pacientes do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Casa Azul que sei que não tem nem televisão, quem dirá telefone celular ou rede social. Parece besteira pensar nisso, quando no senso comum acreditamos que eles estão acostumados a viver com pouco. Mas esses dias me peguei pensando profundamente ou mais profundamente sobre isso.
Foi com um paciente nosso que está com câncer para o qual eu perguntei “mas o que você gosta de fazer em casa?”. Eu estava esperando ele dizer que gostava de assistir TV ou escutar rádio, mas não foi esta resposta que obtive. Ele disse que não gostava de ficar em casa, porque não tinha nada em casa pra fazer além de dormir. Eu então perguntei se ele não gostava de assistir novela e ele me respondeu que não tinha TV.
Essa não foi a primeira vez que me pego nessa situação. Teve uma outra paciente que chegou queixando-se que estava acordando de madrugada todos os dias e não conseguia mais dormir. Pensamos que poderiam ser os medicamentos ou alguma coisa relacionada a menopausa, mas quando comecei a investigar como eram os hábitos de sono dela e de seu companheiro, ela disse que às 18 horas já estavam indo se deitar. Era meio que óbvio que no meio da madrugada ela não tivesse mais sono. Mas e por que dormir tão cedo? Eu me atrevi a perguntar. A resposta foi a mesma do primeiro paciente. Não tinham nada para fazer. Assim chegam até nós vários com a mesma resposta.
Alguns vão dizer pra irem rachar uma lenha. Que só não tem o que fazer quem não quer! Mas não é sobre isso que estou querendo falar. É sobre acesso. Sobre dignidade. Sobre como a minha vida de quem escreve é boa e a sua que lê também. Não é sobre TV ou não ter outros problemas, se é que você leitor me entende.
E veio a chuva. Veio meu questionamento a partir de uma angústia de mãe que no dia chuvoso inventa de tudo para que o filho não fique somente nas telas. Vale fazer cabana, brincar de sombras na parede, jogos, desenhos e tudo o que a sua imaginação, seu tempo e sua paciência permitirem. Mas e aquelas mães que nem em casa com seus filhos estão em um final de semana chuvoso? Tomara que tenham TV.
Mas essas situações tão discrepantes entre a minha realidade e a de muitos se escancara com uma simples pergunta em um dia chuvoso. Mas o quanto essas diferenças continuam ecoando em mim pelo resto dos dias ensolarados?
E aquelas pessoas que não tem nem teto em dias de chuva? Deixarei pra falar em outra oportunidade.
Quero sugerir a leitura de um livro que escancara essas diferenças e nos faz repensar muito as nossas reclamações do dia a dia da nossa vida “ordinária” – Quarto de despejo: diário de uma favelada de Carolina Maria de Jesus. Não há como não ser tocado pelo comovente registro diário da autora. "Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é a fome, a dor, e a aflição do pobre" escreveu ela. Engasguei e chorei muitas vezes durante essa leitura. Ela ficou ecoando em mim e talvez por isso esse dia de chuva me incomodou tanto hoje. Espero que me incomode sempre!
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