O trabalho invisível de ser mãe e trabalhadora
Um pouquinho mais de “mi mi mi” porque ainda precisamos.
Foto: Unsplash
Você já assistiu ao filme “Que horas ela volta?” (2015) protagonizado por Regina Casé? Pois é, quando resolvi escrever sobre a temática de hoje essa foi a segunda referência que lembrei e não poderia deixar de citar. O filme aborda a superação da desigualdade social e a quebra de paradigmas de submissão de uma trabalhadora doméstica que, para conseguir sustentar a própria filha necessita ficar longe dela. Entre outras reflexões a obra destaca o desejo de uma nova geração de ser valorizada e ocupar novos espaços, que antes não lhes era permitido.
Mas a primeira referência que eu tive é o livro “Solitária” da Eliane Alvez Cruz, de quem eu sou muito fã, mas ainda não conheço pessoalmente.
Solitária conta a história de duas mulheres negras, Mabel e Eunice, mãe e filha, que moram no trabalho, um condomínio de luxo desses encontrados em qualquer grande cidade brasileira (da Sinopse).
Além de ter uma enredo potente por vários outros motivos, este livro me marcou muito em relação ao fato daquela “empregada” também ser uma mãe e quais as suas dificuldades para exercer essa maternidade.
Dia primeiro de maio comemoramos o dia do trabalhador e da trabalhadora, data super importante e que já pode nos trazer muitas reflexões. Quem são os trabalhadores que puderam aproveitar o feriado é uma delas.
Mas maio, também reserva a comemoração do dia das mães e com essas duas datas no mesmo mês a pergunta mais adequada a ser feita é sobre quando as mães descansam. Eu brincava com uma amiga que "mãe descansa enquanto trabalha!". Mas essa afirmativa não é verdadeira para a maioria das mulheres que optam pela maternidade ou que não tiveram outra opção.
Falar sobre essas coisas em uma data cercada de romantização mercadológica é nadar contra a correnteza. Mas é preciso falar!
Eu amo ser mãe e em todos os meus cinco dias das mães com Davi (meu filho), amei as homenagens e os presentes. Mas como é o reconhecimento desse trabalho? Com raras exceções, a mulher que torna-se mãe não tem mais pensamentos controláveis. Seu imaginário é povoado 24 horas por dia por preocupações que vão desde o que vou mandar pro lanche, ou se o "bichinho" vai ter uniforme limpo na segunda-feira se a chuva não parar, até quais serão os traumas que o filho vai carregar porque no final do dia, quando você chega do trabalho, está completamente sem paciência pra sentar no chão brincar ou ler uma história e também precisa preparar a janta e a marmita do próximo dia. E não pode ser qualquer marmita. Precisa ser saudável. E parece que todo mundo tá conseguindo deixar a criança fora da tela e só você é a péssima mãe que tem canseira sem fim, dor de cabeça e nas pernas no final do dia.
Eu poderia fazer uma lista de coisas que nos fazem sentir culpadas. Até mesmo quando a sua mãe diz que criou 5 e nunca sentou no chão pra brincar e ninguém morreu (não é a minha mãe que diz isso tá?). Que gritava muito e até batia e ninguém morreu (Não morreu, mas estamos aqui enlouquecidas tentando fazer diferente e cheias de traumas).
Elas são ruins por causa disso? Piores mães? Não! Foram as que conseguiram ser. Mas a nossa geração está em um momento que bater não é mais aceitável, mas as crianças continuam enfrentando.
Esse post não é pra defender antigos métodos de criação, mas quero chamar a atenção para esse universo que é o de ser mãe, de trabalhar fora e também ser mãe, que vai muito além das horas remuneradas. Das dificuldades que as mães solo enfrentam para criar seus filhos e o quanto TRABALHADORAS elas são.
Shakira em seu show no Rio de Janeiro no dia 2 de maio dedicou sua música “Soltera” a essas mulheres, destacando o esforço diário de criar os filhos sem ajuda. Ela ainda trouxe a estatística de que no Brasil, há mais de 20 milhões de mães solo (assunto que abordo em meu romance “Não me chame de mãe” (2025).
E tem a turma que vem nos perguntar nos eventos literários “mas com quem ficou seu filho?”. A resposta deveria ser óbvia - com o pai - mas não é essa a maioria das realidades. E me questiono sempre “se eu fosse um homem indo a um evento literário, será que me perguntariam com quem eu deixei meu filho?”. Talvez por isso durante muitos anos só ouvimos falar de homens escritores.
Aí tem ainda uma outra turma, a do "Mas você SÓ é mãe? Não trabalha?".
Pausa para um silêncio.
Se eu fosse escrever sobre divisão do trabalho nas famílias ou sobre pensão quando de separação, principalmente quando os casais têm crianças pequenas iríamos para uma área ainda muito mais desigual.
Este pouco punhado de palavras é para nos ajudar a relacionar o dia do trabalho com o dia das mães e valorizar este serviço invisível, mas que sem ele a engrenagem não roda, as crianças não se criam.
Para além do amor, neste dia das mães felicite com as seguintes palavras "feliz dia do trabalho de mãe!" (mãe, essa felicitação é também especialmente pra você que sempre se achou menos, porque SÓ trabalhava em casa! - contem ironia).
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