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domingo, 27 de setembro de 2026
Voltar Adriana Moro

Para que a gente não esqueça: para que nunca mais aconteça

O preconceito que estamos reproduzindo quanto sociedade.

18 de maio de 2026 · 13:37 · 4 min de leitura

Foto: Dalila Rodrigues/Divulgação

 

Um começou assim…

 

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“Quando eu era criança, tinha dois colegas maiores do que eu e todos os dias eles me batiam na barriga. Nunca foram pegos fazendo isso. Eu lembro que eu tive nojo de mim mesmo, pois achei que tinha algo errado comigo por eles me baterem”.

 

Outro continuou assim…

 

“Quando eu estava na sétima série me provocavam e xingavam na sala, foi piorando com ameaças e intimidações. Acho que isso foi porque eu sou feio e era retardado, não conseguia falar direito e era indesejável, sempre isolado”.

 

E outro assim…

 

“Um dia no intervalo, eu tinha ido no banheiro e quando percebi eles tinham trancado a porta pra me zoar. A partir daí eu fiquei ainda mais sozinho”.

 

 

Esses são alguns relatos de adolescentes que estão fazendo acompanhamento no SUS por questões de saúde mental. Eles contam ainda que alguns colegas chegam a colocar a cabeça deles na privada e puxar a descarga, puxam com frequência as suas alças para cima. O problema maior para além dos traumas que estas situações trazem é a percepção deles de que a escola não faz nada, que esses adolescentes que praticam o bullying ficam impunes.

 

Esse é um retrato da saúde mental dos adolescentes da atualidade que eu gostaria de jogar hoje na mesa para nossa reflexão.

 

Em maio temos uma data super importante para falarmos sobre saúde mental, pois dia 18 de maio é o dia que comemoramos a Luta Antimanicomial. Uma data criada para celebrarmos as mobilizações que redirecionaram o modelo de assistência em saúde mental no Brasil. São 25 anos desde a sanção da Lei 10.216/2001, mais conhecida como a Lei da Reforma Psiquiátrica, cuja propositura vem de encontro ao modelo asilar-manicomial, priorizando o cuidado em liberdade e 48 anos do início das mobilizações que tem como ponto de partida o ano de 1978. Foram anos de intensa articulação de um movimento político organizado, que reivindicava a ruptura com a psiquiatria tradicional. Marcada pelo início de uma aliança entre movimento popular e classe trabalhadora organizada, que denunciou maus-tratos e violências praticadas contra pacientes psiquiátricos, bem como às condições precárias de trabalho daquela época.

 

Apesar de todos os avanços que tivemos, o que podemos perceber com o relato dos adolescentes acima é que ainda o cuidado em liberdade não chegou ao cerne da sociedade, desmistificando e rompendo com padrões de violência contra aqueles que são diferentes. A reprodução da violência contra as pessoas que tem algum diagnóstico psiquiátrico ou apresentam alguma variação daquilo que é considerado normal para maioria já vira mira de ataques.

 

E sabe qual é o desejo inconsciente de quase toda a sociedade? Esconder essas pessoas “diferentes”. Se possível onde os olhos não possam ver. Ainda queremos trancar o que chamamos de “loucura”.

 

 

Aquele “pinel”, “aquela louca”, “aquele retardado”, “aquele burro”. Termos depreciativos populares, que, na verdade, são "gírias". Em termos da distinção entre significado denotativo e conotativo, esses termos parecem não ter referente, mas constituem um conjunto de associações e julgamentos negativos em si mesmos. Segundo estudos recentes as principais fontes parecem ser a mídia, a família e os amigos. Referências depreciativas a pessoas com doenças mentais aparecem com frequência na mídia impressa, televisiva e cinematográfica. Em reportagens sobre doenças mentais na televisão e em jornais. Pasmem, mas a maior incidência dessa influência negativa ocorre em animações infantis. Os programas infantis nos EUA trazem imagens que foram tipicamente usadas para depreciar e ridicularizar. Mais especificamente, um estudo canadense examinou filmes de animação da Disney para crianças e descobriu que 85% continham referências verbais a doenças mentais e eram usadas principalmente para “'separar e denegrir” os personagens (LAWSON, A.; FOUTS, G. Doença mental em filmes de animação da Disney. Can J Psychiatry. 2004;49:310–314. doi: 10.1177/070674370404900506).

 

Trazendo essas informações gostaria que pensássemos de que forma nós, em nosso minimundo poderíamos começar a fazer alguma ação em prol da mudança dessa triste realidade.

 

Hoje são os adolescentes dos outros que estão sofrendo bullying, mas e se fosse o nosso? E se fôssemos nós?

 

Hoje estou um pouco revoltada. Mas as vezes fico assim mesmo, quando vejo que apesar dos avanços alcançados, ainda temos tanto para alcançar.

 

Para entrar no clima vou deixar a dica de três filmes:

- Nise: o coração da loucura;

- Palavras nas paredes do banheiro;

- Extraordinário (também tem livro);

 

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