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domingo, 27 de setembro de 2026
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Pra vida toda valer a pena viver

E você, o que precisa fazer hoje se o seu amanhã não vier?

23 de fevereiro de 2026 · 12:02 · Atualizada em 23 de fevereiro de 2026 · 12:02 · 5 min de leitura

Foto: Freepik

O dia começa igual a todos os outros. Você toma café, dá de comer ao filho. Escova os dentes. Arruma a casa minimamente. Arruma a marmita pro trabalho. Brinca um pouco com o filho. Faz o filho cumprir suas rotinas enquanto responde mensagens do trabalho. Arruma a mala dele pra aula. Coloca ele no carro. Deixa ele na casa da nonna como de costume. Dá um beijo e um abraço forte. Se dirige ao seu trabalho, mas não cumpre sua rotina. Dirige até o hospital e não volta mais nem para o trabalho e nem para buscar o filho na escola.

De repente nenhuma medicação pra dor resolve a sua, nem mesmo as mais potentes. Depois de horas se contorcendo você descobre que terá de fazer uma cirurgia de emergência, você apaga por alguns instantes. Tenta abrir os olhos e não consegue. Escuta a voz da sua mãe, quer falar com ela, mas também não consegue. O que você planejou para aquele dia não adiantou de nada. O que planejou para um feriado prolongado também não. Você percebe que não está no controle de nada. Que a vida é um fio. Que o beijo de despedida rotineiro pode ser o da despedida de uma vida inteira.

No centro cirúrgico você está sozinha. Mesmo que tenha frequentado aquele ambiente por vezes com seus estagiários, sente medo. Não sabe porque tem medo. Talvez seja exatamente porque sente que a vida é um fio. Que ali você é vulnerável. Sua vida inteira está coberta por um lençol branco e fino. Quando vê um rosto conhecido, chora! Alguém ali sabe quem você é!

Chora. Agora não por medo, mas por uma tristeza que foi chegando dizendo mais uma vez que você não está no controle. Você fecha os olhos e confia. Acorda com pessoas conhecidas, que você ajudou a formar te cuidando. Naquele momento as pessoas já sabem quem você é. Você já sabe que continua sendo. Não precisa mais chorar.

Foto: Arquivo pessoal, Rio Mondego - Coimbra/Portugal 10 anos atrás. Na última semana esteve transbordado, o que me causou muita tristeza, pela cidade em que morei durante 1 ano, pela natureza exuberante, pelas lembranças que tenho do momentos as suas margens. A vida passa ligeira.

Ainda não me recuperei bem do choque. Já tinha passado por outras quatro cirurgias, mas mesmo sendo urgentes, todas de alguma forma foram programadas. Por instantes a vida passa como em um filme na frente da gente. Muitas pessoas fazem este relato quando tem acidentes ou situações parecidas. Minha mãe estava ali do meu lado, como sempre esteve em todas as outras cirurgias, mas diferente das outras vezes, enquanto eu não conseguia falar, nem abrir os olhos, ela chorava. Ela dificilmente chora na minha frente nestas situações. Mas eu não estava ali conscientemente, talvez por isso ela se deu a permissão de chorar. Acho que também deve ter passado um filme pela sua cabeça.

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Enquanto estava com dor não conseguia pedir nada a Deus, a não ser que a dor passasse. Logo eu, que sempre peço por todo mundo, naquele momento só conseguia pedir por mim. Aquele famoso ensinamento dos aviões “primeiro coloque a sua máscara” para depois poder ajudar aos outros.

Pensei muito no Davi, que estava na aula naquele momento. No meu companheiro que estava no trabalho com várias preocupações que já vínhamos tendo naquela semana. Pensei no meu trabalho, que simplesmente abandonei para ir até o hospital. Nas demandas do Ministério Público que fiquei de responder, assim como nas pessoas que fiquei de responder mensagem. Nos compromissos que precisava desmarcar, nos livros que não publiquei, no romance que não terminei. Será que se alguém colocasse as 60 páginas que já estão escritas em uma Inteligência Artificial ela conseguiria desenhar o fim que eu tenho em minha cabeça? Acho que nas histórias que escrevemos temos minimamente controle sobre os finais. Na vida não!

Fiquei pensando naquele livro da Ana Cláudia Quintana Arantes (gosto de todos os livros dela, mas este em particular o título já me pegou muito na oportunidade que li) “Pra vida toda valer a pena viver”.

Conheça o livro aqui!

O livro é uma lição transcrita pela autora, médica Ana, mas acima de tudo escrita pelas pessoas, pacientes que ela atendeu nos cuidados paliativos: “Doutora Ana, procuro levar a vida de tal modo que, quando eu morrer, as pessoas sintam saudade, e não alívio.” disse uma dessas pacientes.

Fiquei pensando se até aquele dia minha vida tinha valido a pena, e sim, tinha valido!

Fiquei pensando no conselho que escutamos de que não deixemos para outro dia o perdoar alguém, ou pedir perdão. Dizer o que sentimos, como nos sentimos. Não deixar para outro dia pra se dizer o quanto se ama alguém. O quanto aquele alguém é importante para nós!

Parece besteira, mas em um dos momentos no qual fazia esta análise durante os episódios de dor, meu sorriso se iluminou, pois lembrei que tinha beijado o Davi quando o deixei e tinha lhe dito que o amava. Pensei nas discussões da última semana com meu companheiro e que mesmo em meio ao caos eu tinha lhe falado o quanto ele era importante para mim.

Este é meu móvel de cabeceira neste exato momento. Está um caos, como tudo o que eu havia planejado. Leituras espalhadas para serem feitas, devocional, minhas memórias mais lindas nos porta-retratos. Não consigo sentar por muito tempo, tenho mais alguns longos dias de pós-operatório pela frente (meu último suspiro de hormônio antes da menopausa precoce se foi necrosado e enrolado em si próprio, vulgo “torção ovariana”) e para digitar no computador estou semi-sentada auxiliada pelos efeitos da dipirona e do toragesix. Estou viva, mais viva e consciente do que nunca, de que não posso deixar este texto para ser escrito amanhã, pois o amanhã pode não vir.

E você, o que precisa fazer hoje se o seu amanhã não vier?

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