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sábado, 26 de setembro de 2026
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Quem era eu antes de ser sua mãe?

Para tudo há um tempo.

2 de março de 2026 · 11:57 · Atualizada em 2 de março de 2026 · 12:00 · 5 min de leitura

Foto: Unsplash

Há cinco anos atrás, quando Davi nasceu eu tinha 37 anos. Estava cheia de planos, tinha começado um pós-doutorado na FIOCRUZ, era secretária de saúde do munícipio de Mafra e tinha descoberto uma lesão no epitélio intestinal que me impedia de fazer a digestão do glúten. Tinha começado então uma dieta sem glúten e sem ter mais dor estava muito disposta. Esta era a Adri antes do Davi. Vivíamos a pandemia do covid-19, o mundo estava virado de cabeça para baixo. Eu escrevia o meu primeiro romance.

Quando Davi chegou o tempo parou pra mim. Agora eu não era mais a Adri, eu era a mãe do Davi. Hoje escrevo isso tentando lembrar meus sentimentos na época, o medo que nasceu em mim como uma erva daninha e mesmo as minhas mais plenas certezas foram se confundindo. Era medo das coisas mais básicas: se eu seria uma boa mãe, se ele me amaria, se ele me obedeceria, se eu conseguiria colocar em prática a rotina do sono da noite.

Depois veio a fase de começar a introdução alimentar e aquele desespero de ver a casa ficando cheia de comida por todos os lados. Será que ele nunca aprenderia a comer sem fazer sujeira? Aí vieram os primeiros passos. Como a gente faz pra uma criança aprender a anda? E falar? E depois veio a época de tirar da fralda que eu pensei que nunca conseguiríamos. Foi tão difícil naqueles primeiros dias, eu lembro. Eu chegava no trabalho e comentava com meus colegas quantas cuecas ele havia sujado. Eu lembro que foi difícil, mas não lembro exatamente como foi. A escola ajudou. Davi se ajudou muito. E aconteceu. Acho que levou uma semana ou um pouquinho mais e depois de um mês já não usava mais nem fralda a noite.

Essas coisas parecem um milagre vocês não acham? Eu acho! É como se virasse uma chave e a criança se desenvolvesse. É lindo. Mas, eu como mãe, sempre achava (ainda acho! Hehehe) que eu era responsável por aquilo. Era como se naquele dia a mãe acordasse e resolvesse “é hoje! Dia de sair das fraldas!”.

Mais recentemente veio o dia de tirar a chupeta. Precisava tirar por causa dos dentes principalmente e pela idade. Eu achei que seria impossível. Ficava pensando em como ele adormeceria sem a chupeta. Ele cheirava meu dedo pra dormir e cutucava as minhas cutículas. Mas aí tiramos a chupeta durante o dia (lembram que comecei na praia?). Eu ali firme mesmo ele pedindo. Depois veio a tirada da noite. Fomos ao pediatra e quando chegamos em casa eu simplesmente decidi “hoje é o dia de tirar a chupeta da noite!” e assim foi. Ele pediu a chupeta 15 minutos ininterruptos e adormeceu no meu colo de ponta cabeça na cama. No dia seguinte ele pediu de novo, mas não cheirou meu dedo, nem cutucou minha cotícula. Depois não pediu mais. E a etapa da chupeta passou também. Como tantas outras coisas já passaram. Temos um rapazinho que troca de roupa e tenta tomar banho sozinho agora. É meio impactante tudo isso! Complicado pra se escrever.

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E onde está a Adri de 5 anos atrás depois de tudo isso?

Recentemente li um livro de uma amiga escritora, Fernanda França de Oliveira, que já no título traz tudo aquilo que venho me questionando agora que Davi parece não precisar mais tanto de mim, está cada dia mais independente “Quem era eu antes de ser sua mãe” da editora Urutau.

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Os livros da Fer sempre me impactam muito porque ela consegue de forma poética me visitar como mãe, como mulher em seus livros. Já li três livros dela, mas este em especial me tocou tão profundamente que resolvi compartilhar.

Ela escreve “Uma coisa de cada vez. É só no esquecer de carregar o celular antes de sair”. Parece só uma frase, mas no contexto Fernanda conta de uma das primeiras vezes que foi fazer algo sem a filha. Que tomou um café rápido, porque achava que ela iria chorar na sua ausência. Mas não. Quando chegou a filha estava bem. E Fernanda conclui que na outra oportunidade que teria de sair sozinha poderia até comer um docinho.

Na verdade, quando nos tornamos mães passamos por uma fase onde nos confundimos coma criança ali nos primeiros meses. Depois aos poucos desejamos internamente voltar a ser um pouco como éramos antes. Desejamos tomar um banho mais demorado ou dormir uma noite inteira. Mas quando temos a oportunidade de fazer isso, como por exemplo quando viajamos a primeira vez a trabalho sem a criança, temos sentimentos ambíguos: queremos que a criança fiquei bem na nossa ausência, mas também queremos que ela sinta uma pouquinho a nossa falta para nos sentirmos necessárias e amadas.

Fernanda escreve “Eu me pergunto se algum dia vou esquecer desses detalhes. E para não o fazer, escrevo e eternizo cada cantinho seu”.

Eu não sei porque escrevo pouco sobre esses detalhes com Davi, mas depois dessa situação com a chupeta, quero um dia poder ver que aquele momento foi tão importante pra mim, porque foi importante para o Davi. É como se fosse um rito de passagem.

Agora não tenho mais bebê em casa Fer! E porque li isso que você escreveu no seu livro eu resolvi escrever sobre isso hoje.

Como sabiamente canta Caetano sobre o tempo “És um senhor tão bonito, Quanto a cara do meu filho, Tempo… Tempo… Tempo… Tempo”

“Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito (Eclesiastes 3,1).

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