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sábado, 26 de setembro de 2026
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Resumo de férias no litoral: perdi um óculos, mas ganhei uma história

Tipo “Cercas Vivas”, nem sempre o que fica é só coisa boa, as vezes espinha, mas tudo é memória e “morada da saudade”.

11 de janeiro de 2026 · 20:26 · Atualizada em 6 de fevereiro de 2026 · 14:39 · 5 min de leitura

Fotos: Divulgação

Nos últimos nove dias que estivemos no litoral aproveitando as férias em família, teve de tudo. Teve goteira em um apartamento que há anos está na família (e não é pouca água, é muita água!), teve uma suspeita de bicho de pé na mão do meu companheiro, teve uma onda que levou meus óculos de grau, de sol (levou e não devolveu!). Pois é, pra não deixar de dizer tiveram também aqueles lugares que a gente deixa de passar protetor solar no corpo e que resolvem mostrar a existência nos dias de sol, e claro, hoje já estão descascando. Ah, voltamos com Davi vomitando o trajeto todo e hoje ainda estamos com diarreia (eu, Davi e Andreas).

Mas como tudo na vida, mesmo eu estando nesses últimos dias (fora do meu normal) não otimista (e nem é a toa!) também preciso contar sobre as coisas boas que aconteceram. Das pequenas as grandes coisas. Davizinho passou a usar a chupeta somente a noite (é, ele usava quando estava cansado ou triste pra se regular e isso eram algumas vezes ao dia). O primeiro dia foi um choro horrível. Aquele choro que incomoda e eu poderia ficar falando somente sobre isso nessa postagem toda, nós poderíamos ter desistido (bem fácil!), mas ele parou de chorar e começou a deixar a chupeta no quarto quando acorda desde o dia 25 de dezembro. O trato era trocar a chupeta por uma espada com o papai Noel, mas este velho tá muito bonzinho com essa nova geração e resolveu abrir uma exceção. Mas para minha honra e glória (viva as mães! Menos uma coisa), ontem ele quase esqueceu de pedir a chupeta pra dormir e hoje a tarde dormiu sem chupeta (vamos dar um desconto que ele estava com febre da virose).

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Achei fantástica a história da chupeta e a praia, será uma memória incrível pra gente e horrível pra ele, mas adorei ter uma história pra ele contar sobre isso. Dessa mesma leva, tivemos que entreter muito a criança, pra não lembrar da tal chupeta e ele jogou todos os jogos existentes no apartamento com todos que lá estavam. Incluindo a nonna e o opa: baralho, dominó, teve até leitura do Capitão Cueca pelo opa no quarto antes de dormir (que eu achei fantástico também) e fiquei lembrando que quando eu era pequena (uns 6 anos) queria muito morar na praia. Eu achava que a vida na praia se resumia a levantar 5 horas da manhã e ir com meu avô materno até as rochas catar marisco pra fazer abafado no almoço. Meu Deus como isso era bom! Depois quando fui ficando mais grandinha tinham as paqueras de praia, que todo ano se repetiam, pois ficávamos na mesma casa de madeira alugada bem em frente a praia de Enseada em São Francisco do Sul -SC. Davi também já tem seu amiguinho de praia, segundo ano que brincam juntos e agora já tenho até o telefone da mãe dele.

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Pra completar comecei a ler o livro “Morada da saudade” da irmã da minha sogra Geonete Bernardi Peiter, que conta sobre a história da família delas. Uma família italiana incrível. Fico muito feliz por estar fazendo parte dessa história e orgulhosa, porque nossos filhos terão a oportunidade de conhecer mais sobre seus antecedentes. Infelizmente, apesar de dar muito valor a isso, na minha família não conseguimos fazer esse resgate e eu fico com as doces lembranças do meu avô paterno contando os causos dele e curando nossas verrugas com toucinho crú. Com uma consciência agora das minha origens indígenas na mistura da mãe da minha vó paterna que foi “pega pra cachorro” como os antigos diziam e foi citado no livro “O som do rugido da onça” da Micheliny Verunschk, vencedor do jabuti de 2022 (a ficção que me abriu os olhos para minhas origens).

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A grande verdade é que nem tudo o que fica é memória boa, as vezes temos aquelas espinhentas, tipo umas “Cercas vivas” título que a Curitibana Rai Gradowski, tão criativamente dá ao seu romance de estreia. Na história que Rai conta, uma moça meio desiludida da vida herda uma casa que foi de sua avó, que conforme a trama vai se passando, descobrimos que era uma sábia mulher que ajudava as pessoas que a procuravam com seus chás milagrosos. A história da Rai mexeu muito comigo, porque sempre gostei muito de práticas mais integrativas, como chás, danças circulares e afins. Mas outro ponto alto do livro foi essa mulher proteger outras mulheres da violência doméstica (spoiler). Foi muito impactante pra mim e o ponto alto do livro (na minha humilde opinião). Eu até teria reservado o livro das Cercas Vivas pra falar em uma postagem sobre violência contra a mulher (tema que muito me atravessa), mas depois desses dias na praia fiquei lembrando muito das memórias que ficam, algumas nem tão boas, mas ficam. E somos construídos disso. Como na história desse livro.

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Nos próximos verões vamos lembrar da passagem de 2025 para 2026 como o verão que a mamãe perdeu os óculos enquanto surfava e entrou em uma luta física contra perigosas ondas no mar (tudo imaginação da minha cabeça, nem vou no fundo, mas cada um conta a história com a sua versão, não é?).

Mas também será o verão que Davi parou de usar chupeta (será?).

O verão em que lembrei do meu avô que levava uma criança de 6 anos catar marisco as 5 horas da madrugada e um outro que passava touchinho de porco nas verrugas das netas e depois levava para as formigas comerem (se vocês soubessem cada besteira que meu avô contava pra gente, chamariam o conselho tutelar. Ah, naquela época não tinha isso!).

Foi o verão que Davi me ditou a primeira história dele, totalmente autoral, com ilustrações e tudo. Imagina se ele vira escritor quando crescer? Ele terá essa memória, que foi no verão que a mamãe perdeu os óculos, que ela ganhou uma virose e uma história.

A praia será uma “morada da saudade” para nós!

"Somos feitos de cotidiano: nós, saúde mental e literaturas".  Adriana Moro é escritora, enfermeira especialista em saúde mental e pós-doutora em saúde pública, com nove livros publicados. Mãe do Davi, amante da vida, da natureza e das pessoas.

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