Seria o nosso tempo um emaranhado de horas, embolados em um amargor solitário?
A história que escrevi serve para refletirmos na pressa que carregamos e o que realmente estamos vivendo.
Foto: Magnific
Em um dia de muito frio, céu cinza e vento cortante, uma mãe qualquer, cheia de vontade de ser a melhor do mundo resolve passear com seu filho de cinco anos pelas ruas da cidade a procura de um parquinho. A cidade é pacata. Há poucos carros nas ruas. Nem sinaleira é necessária, pois o único engarrafamento que os motoristas dali enfrentam é as 17:30h, quando as crianças saem da escola e os pais de seus trabalhos.
O filho sobe nas muretas, a mãe o guia pela mão. Nesta cena não há celular, há conexão.
O filho mostra com um movimento de suas pequenas mãos a magia que vê no mundo. A mãe continua o guiando pela mão para que atravessem a rua em segurança.
A mãe procura a faixa de pedestres. O filho teima um pouco pra atravessar. Ele é criança e continua a apontar para a placa que consegue ler “PARE”. Um carro para quase encima da faixa:
- Acha que é madame é?! - grita o motorista do carro enraivecido, como se não fosse sua obrigação parar. Como se fosse cego e não visse que a mulher puxava a criança pelo braço e tentava caminhar o mais rápido possível para não deixar o motorista bravo daquele jeito. A mãe puxava o menino tão forte como se já esperasse que seria agredida verbalmente. Ela atravessou o mais rápido que pode, quase tropicou, com sentimento de que estava fazendo algo errado.
Foto: Unsplash
ESTAMOS DOENTES DE PRESSA E ISSO É UM HORROR!
As pessoas não tem mais paciência para nada. Quantas histórias de desentendimento no trânsito que levaram a morte você já ouviu?
Eu sou o tipo de pessoa que não buzina quando dirige. Talvez eu até seja pacata demais. Porém em uma situação como a descrita acima fico refletindo o quanto estamos desconectados como humanos. Você consegue se ver em qual das personagens?
É início de junho e metade do ano já se passou. Quantos dos planos que você tinha lá em dezembro você já conseguiu concretizar?
Este ano até aqui passou me atropelando. Parece que vivi uns cinco anos em seis meses. Teve de tudo: aniversário do filho e do marido, bienal, festa literária, comemoração de 10 anos de carreira, problemas de saúde, cirurgia, retiro, muito trabalho, escrevi uma orelha e dois prefácios de livros que me tocaram profundamente. Um deles, que já foi lançado é “A INVENTARIANTE” da minha amiga Analu Leite, publicado pela nossa editora Urutau e tem tudo haver com pressa. Nossa personagem está doente de “fazer”.
Conheça mais sobre o livro aqui!
Aqui um pedacinho da orelha pra você ficar com vontade de conhecer mais sobre este livro fantástico e envolvente da Analu.
Alguma vez você já sentiu que a vida estava te atropelando?
É sob essa perspectiva que o novo romance de Analu Leite toca em pontos tão sensíveis. Grandes e pequenos acontecimentos que podem estar presentes na vida de qualquer um dão o tom da narrativa: luto, divórcio, dificuldades de relacionamento, pressão no trabalho. Às vezes, até as funções mais básicas, como dormir e acordar, tornam-se um desafio.
Marcela tem uma vida comum, entre as subidas e descidas da cidade de Salvador. Uma vida em camadas, como a de qualquer um de nós, repleta de acúmulo de atividades e sentimentos mal resolvidos — subprodutos da sociedade atual. Mas o chamado para inventariar os bens de um pai ausente e complexo é o gatilho que a joga de volta em suas memórias e a obriga a revisitar o passado, fazendo do processo de inventário o fio condutor que nos guia pela trajetória da protagonista.
Esta indicação de livro e a história que escrevi mais acima são para refletirmos na pressa que carregamos e o que realmente estamos vivendo. Seria o nosso tempo um emaranhado de horas, embolados em um amargor solitário ou acontecimentos ordinários, bem vividos, que marcam nossas linhas do tempo sem pressa com presentes de estar e pertencer, para além do ter e do fazer?
Feliz junho pessoal!
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