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sábado, 26 de setembro de 2026
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Sobre resistir e insistir

A vida por trás das fotos.

20 de abril de 2026 · 10:58 · Atualizada em 20 de abril de 2026 · 10:58 · 4 min de leitura

Foto: Divulgação

Estou escrevendo este texto no aeroporto a caminho de casa. Muitas horas de viagem. Duas conexões. Uma pessoa especial me esperando no aeroporto pra me levar de carro para o interior do Estado do Paraná onde moro. 

Trouxe minha literatura para ser apresentada a Bahia, ao nordeste. Muito feliz comemorando 10 anos de carreira Literária. Mas a história por trás dos bastidores que quase ninguém sabe é dolorosa e por vezes desesperançosa.

" - Mas não parece! Você não demonstra!" - disse uma amiga escritora ontem.

No pescoço levo a credencial em um cordão "girassol" que significa que eu sou uma pessoa com uma deficiência oculta. E sou! Tenho não uma deficiência oculta, mas sim duas. Distonia de membro superior direito e doença de crohn. Muitos já sabem, mas é bom contar aos que chegam novos por essas linhas. No meio disso tudo tem mais uma intolerância ao glutem, outra a lactose e uma insuficiência pancreática.

Brinquei que se meu perfil fosse escrever sobre minha rotina com "problemas de saúde" meu perfil provavelmente bombaria. Mas resolvi falar sobre vida no cotidiano, saúde mental e literatura. 

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Sabe aquele dizer: "No meio do caminho tinha uma pedra (tem várias na verdade), guardo todas e com elas um dia construirei um castelo"? Dizem que esta frase é de Fernando Pessoa. Não sei. Só sei que gosto muito dela e poderia ter sido escrita por mim.

Não é fácil pra mim viajar. Não é fácil carregar peso e ficar em ambientes com muita gente, barulhentos, com muito estímulo como aeroportos e bienais. Eu fico muito tonta. Minha cabeça tem doído muito, estou toda contraída, tenho que cuidar muito da minha alimentação e por vezes não consigo e tenho que fazer um grande esforço para estar aqui. 

Mas é meu sonho. Se eu não for, ninguém irá por mim!

No meu livro "As meninas que nunca perderam a graça" conto histórias de mulheres que passaram por minha vida e também insistiram e resistiram. E essas mulheres continuam passando. 

Estou lendo o novo livro da autora Quezia Carneiro "Quando meu silêncio pariu poesia" e apesar de ter dores diferentes das que a autora relata, como por exemplo a dor do luto, me reconheço na dor invisível que ninguém vê. Não é que a gente queira que as pessoas vejam nossa dor, mas gostaríamos que não nos fizessem desacreditar dela, como se tivéssemos mentindo porque ela não aparece.

Apesar de eu ter um laudo de uma deficiência que não aparece, muitas outras pessoas sem laudo estão aqui do meu lado e aí do seu lado andando, resistindo, fazendo as coisas. Quando fico longe de casa fico muito reflexiva. Dou ainda mais valor para o lugar pra onde volto. Mas não deixo de pensar que se eu não insistisse minhas letras não chegariam tão longe. 

Trabalhar com saúde mental não é fácil minha gente, mas trabalhar com arte é um negócio dificílimo também. Então convido você a conhecer os artistas de sua cidade. Valorizá-los. Lê-los! 

Todos temos nossas dores, mas ter a coragem de contá-las deveria ser mais valorizado e não desencorajado.

Conto as minhas não para que sintam "pena", mas para que se encorajem!

Sobre o restante dos bastidores das fotos temos muita dor nas pernas de ficar o dia todo em pé na Bienal panfletando com marcadores de páginas e convidando as pessoas a conhecer nossos livros. Temos duas amigas lindas me fazendo companhia, me cuidando, me fazendo cuscuz com ovo todas as manhãs. Temos o celular entupido de fotos de outras autoras independentes para ajudá-las nas suas divulgações, um encontro maravilhoso com Ailton Krená (peguei o autógrafo dele em um livro do Davi e presenteei com o meu), nada de praia ou pontos turísticos. Não conheci Eliane Alvez Cruz pessoalmente como eu gostaria (autora de "Solitária" e "Água de barrela"). Vi Julia Quinn, autora de da série de romances "Bridgerton" de longe. Não abracei Rafhael Montes dessa vez. Mas vi o lançamento de vários autoras, como Priscilla Navas, Emília Nunez, Ivania Rocha, Cris Vacarezza, Analu Leite, Jeanine Geraldo, entre outras.

Só esperançar!

Pela primeira vez em dois anos de participação em eventos literários minha mala volta mais vazia. O coração como sempre muito mais cheio. A cabeça cheia de histórias.

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