
Nesta última semana fomos pegos mais uma vez com uma notícia horrível de violência contra as mulheres: “Quatro jovens e um menor foram indiciados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro por participarem de um estupro coletivo contra uma garota de 17 anos, ocorrido na noite de 31 de janeiro, em Copacabana, na zona Sul do Rio de Janeiro. Dois dos envolvidos no crime são estudantes do tradicional Colégio Pedro II, e um deles seria ex-namorado da vítima” Noticiou a CNN Brasil. Eu fiquei mais uma vez chocada e acredito que se alguém não se choca mais com isso deve ter perdido a humanidade.
Sou enfermeira e histórias de mulheres, cercadas de muita violência perpassam os nossos atendimentos de saúde, são neles que muitas delas encontram refúgio para descarregar os seus medos e as suas angústias. Encontram nos profissionais de saúde o acolhimento de suas vivências. Já auxiliamos a fazer boletim de ocorrência e já tivemos de chamar a polícia por diversas vezes para homens que tentam agredir as mulheres, companheira e ex-companheiras dentro do próprio serviço.
Tudo isso é um absurdo tão grande que não caberiam nessas linhas a minha indignação.
Em 2021, quando escrevei e publiquei junto com o Instituto Visibilidade Feminina o livro “Mulheres me contaram outro dia: história de violência contra a mulheres que nos fazem repensar o feminino em nós” (esgotado) estávamos em plena pandemia e os casos de violência aumentavam assombrosamente e acreditava-se ser pelo isolamento, etc.
Indicação Visibilidade Feminina
Mas passaram-se 5 anos, não estamos mais isolados e mesmo assim, não paramos de ver mulheres sendo violentadas das mais diversas formas. O que acontece com nossos homens? Por que tanto ódio? Tanta vontade de fazer coisas tão fora do padrão de normalidade?
Recentemente tive a oportunidade de ler o livro “Triste Tigre” da escritora francesa Neige Sinno, no qual ela conta a sua própria história. Começou a ser abusada pelo padrasto quando tinha cerca de seis a sete anos e as agressões continuaram durante sua infância e adolescência, estendendo-se até ela completar cerca de 14 anos.
Conheça mais deste livro aqui!
Me digam, o que leva um homem a tentar relações sexuais com uma criança?
No livro, a autora relata que seu padrasto utilizava justificativas manipuladoras e distorcidas para os abusos sexuais cometidos contra ela, alegando que o estupro seria uma forma de "se aproximar" dela, já que, segundo ele, ela não o aceitava como padrasto.
Gente, por Deus!
Eu chorei enquanto lia o livro e ficava pensando em todas as situações de abuso físico e psicológico que já passei, mas mesmo com todas as sequelas que trago pra vida, estou aqui, com a oportunidade de estar falando/escrevendo sobre isso. Graças as pessoas, principalmente mulheres, que me apoiaram e me apoiam. Mas pergunto, você tem sido apoio para outras mulheres que passam pelos mais variados tipos de violências? Ou você é do tipo que julga a vítima?
Vou trazer aqui parte de uma das histórias do livro “Mulheres me contaram outros dia” e que estará na nova edição do livro “As meninas que nunca perderam a graça” que estarei relançando na Bienal da Bahia no próximo mês (esta história é baseada em um fato real):
A velha benzedeira me ofereceu mais chá e disse: - Minha neta perdeu o útero! Dilaceraram o útero da minha neta! E chorou.
Pegou a minha mão, colocando a outra dela por cima e apertava como se nunca mais fosse largar.
Eu chorei…
O coração ficou apertado e parecia que íamos morrer, eu e a velha benzedeira.
Aquela que benzeu minhas bichas e cozeu todos da nossa família de carne rasgada e osso quebrado.
Sim!
Nossos ossos estavam quebrados naquele momento.
Por que a neta dela havia perdido o útero?
Eu tentava perguntar, mas minha voz não saia da garganta, como se eu não estivesse ali. Como se eu ainda estivesse lá no sonho que ela estava me contando.
Uma menina, um corpo, um útero…
Sim, era a neta dela, a menina de 18 anos que seria nossa paciente em uma semanas seguintes. Atacada na rua por três rapazes quando voltava do curso profissionalizante que fazia três vezes na semana, a noite. Vestia camiseta larga, calça de moletom e carregava uma mochila com seus cadernos.
Eles a estupraram e por final lhe transpassaram um cabo de vassoura que perfurou vagina e intestinos, depois jogaram-a em frente a uma das igrejas evangélicas da nossa cidade.
Reconstituído o intestino, precisou de bolsa coletora de fezes durante alguns meses. Ficou afônica. Entrou em depressão profunda e perdeu o útero.
Digo pra você que a pouco passei a gostar de ganhar flores e também a fazer algum tipo de comemoração no dia 8 de março, mas o que realmente gostaríamos de ganhar é um mundo onde podemos andar tranquilamente pelas ruas, não ficar pensamento antes de aceitar um convite para jantar ou passeio, ou seja lá o que for. Poder estar no trabalho, em casa, na Igreja e ter segurança e respeito.
Qual é seu desejo para o dia 8 de março?
Conheça também o livro de poesias “Candura”, da minha amiga Alice Puterman, mulher autista que passou por muitas violências graves no decorrer da vida e transformou isso em poesia.
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