Você lembra do que gostava de brincar quando era pequena (o)?
As responsabilidades da vida adulta nos fizeram esquecer o que era importante para uma criança.
Foto: Magnific
Era uma vez uma menina muito sapeca que gostava de brincar no quintal. Se deixasse a menina ficava o dia todo criando com as coisas que achava na natureza. Ela usava o barro pra brincar de salão de beleza. Quando a mãe deixava e o sol ajudava, ela misturava o barro amarelo do quintal com água e passava nas pernas dizendo que era creme. Fazia bolo de terra, bonequinhos de barro. No final do dia ela colocava os bonequinhos animais feito de barro em um cercadinho e no dia seguinte dizia que eles tinham dado cria. A mãe não escutava nem a respiração dessa menina e quando o sol caia e a noite vinha, a mãe dizia para ela entrar que ia ficar escuro, mas a menina ainda achava que tinha brincado pouco.
Essa menina era eu!
E hoje eu juro pra vocês que tenho dificuldade em brincar com meu filho. Apesar de me esforçar, o corpo não ajuda, o joelho dói, mas também acho que tem algo haver com a pressa, o pensamento acelerado. A cabeça não ajuda. Seria a dificuldade em viver o momento presente? Você já sentiu isso?
No dia 21 de maio estive na Escola Alvino Scheubauer em Rio Negro – PR em um projeto incrível chamado “Escola de pais”. Fui convidada a falar sobre telas e saúde metal e na mesma semana me deparei com um livro muito significativo que veio pra ser lido com meu filho para o projeto leitura – “Com os pés sujos de lama” de Ana Rapha Nunes.
Durante a minha fala para os pais, que estavam acompanhados de seus adolescentes, eu propus que eles desenhassem o que gostavam de brincar quando eram crianças/adolescentes.
Muitos ficaram espantados. Desenhar e pintar geralmente é visto como uma atividade para crianças e mesmo com a moda do bobbie goods, isso não chega para todos. Tem muito adulto que não tem tempo nem de ir ao banheiro no trabalho. Quem dirá para brincar de pintar. A realidade é dura e muitos de nós somos privilegiados com tempo para brincar com nossos filhos. Ter um hobby no geral e isso pode ajudar a nossa saúde mental.
Fiquei encantada com os desenhos. Destaquei dois, de mãe e filha para elucidar esta reflexão de hoje.
Desenho da filha.
Desenho da mãe.
O que achei interessante é que pais e filhos tem em comum várias brincadeiras em seus desenhos. Entre essas brincadeiras, a corda, a bola, a peteca, a bicicleta, o esconde-esconde estiveram muito presentes. A maioria das brincadeiras que estão em nossa memória são as realizadas ao ar livre. E fiquei me questionando – sendo que a palestra era sobre saúde mental e abuso de telas – de que forma estamos favorecendo as brincadeiras ao ar livre com nossas crianças.
No livro “Pés sujos de lama” os pais reclamavam quando o menino entrava para dentro de casa com os pés sujos da lama do quintal. E nós, também reclamamos quando nossos filhos entram sujos para dentro de casa? Primeiramente, nós deixamos nossos filhos se sujarem?
Acho que a reflexão sobre o brincar, sobre saúde mental e as telas perpassa um outro assunto que nossa geração não apreendeu a lidar direito – a necessidade de controlar: os ambientes, as brincadeiras, as frustrações e afins.
Muito de nós não tem nenhuma pequena área para deixar as crianças brincarem. Dizem por aí que as praças não estão seguras. Mas e se tivessem, teríamos disposição para estar nelas?
Essa reflexão é sobre brincar e também sobre espaços públicos, sobre deixar a criança cair, se sujar.
Depois que fui mãe tenho pensado ainda mais sobre esse assunto e com o passar dos anos acredito que tenho me permitido mudar. A casa já não fica mais tão arrumada como antes. E o tempo está passando. E passa rápido demais! Qual mudança posso fazer hoje em mim que pode afetar a vida do meu filho?
Estudos apontam que passar tempo ao ar livre além de promover movimento, estimula os sentidos e reduz a predisposição a transtornos de ansiedade. Atividades como brincar com massinha, slime, areia ou argila estimulam o tato e a concentração, funcionando como excelentes ferramentas para acalmar os ânimos em momentos de tensão.
Atividades retiram o foco do brincar livre, como por exemplo, jogos online sobrecarregam a criança com estímulos artificiais podendo resultar em impaciência, baixa tolerância à frustração e quadros de irritabilidade (Fundação Abrinq, 2025).
As responsabilidades da vida adulta podem nos ter feito esquecer o que era importante para uma criança. Mas eu tenho um ardente desejo de me lembrar o quanto era bom esfregar barro com água nas pernas.
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